Memórias do VII Encontro de Literatura Contemporânea

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Se às vezes dá vontade de abandonar o barco? Não sei.  Alguns abandonam. Outros jamais embarcam. O fato é que em alto mar as coisas nunca deixam de acontecer. O movimento das águas independe de nós. Nas metáforas velejantes do livro e da leitura existem grandes ondas. Poucas chegam na praia. Mas, que há um genocídio de peixes não tenho dúvidas.  Por exemplo, quando li na programação da XXIV Bienal do Livro de São Paulo, uma das mais badaladas e lucrativas do país e vi que um dos destaques foi a canônica escritora Valeska Popuzuda. Pisquei duas vezes sem querer acreditar e lembrei que na FLIMA – Festival Literário de Marechal Deodoro, em Alagoas, também badalada, o homenageado foi o ‘grande escritor cearense’ Raimundo Fagner. As razões até que são explicáveis. O entendimento é que é questionável.  As feiras são de literatura, de leitura, mas os destaques precisam ser midiáticos. Não são raras as feiras literárias em que todas as atrações são pagas. Exceto os escritores.  Se pode ser diferente?  Já não sei mais. Mas sei que para o lucrativo mercado do livro a literatura contemporânea é um mar morto.

Mesmo não querendo impor qualquer tipo de regra, não posso negar que estamos normatizando algumas equações perversas. Por exemplo, nunca um escritor foi atração de destaque em festival de música. No entanto em todo festival de literatura tem que ter música. Nos festivais de teatro, raramente se discute a natural relação da literatura com a dramaturgia. Os escritores convidados, no máximo, são próximos às artes cênicas. Então me digam por que as atividades ligadas ao livro e leitura (que deveriam ser, sobretudo, atividades reflexivas e de trocas) precisam ficar a reboque do espetáculo? O que está prevalecendo é o sucesso dos eventos literários e não o conceito? Na verdade, mais que isso. Estamos perdendo o foco e ao perder o foco, nos divorciamos das inúmeras propostas de formação de leitores e escritores que existem nas guerrilhas do cotidiano. Seja nas escolas, nas ONGs, nas comunidades e até nos presídios.

Na última segunda-feira de Carnaval participei do VII Encontro de Literatura Contemporânea no Encontro da Nova Consciência, em Campina Grande. Algumas verdades brilharam forte num olhar compartilhado pelos presentes. Primeiro, na palestra inicial proferida pelo professor Helder Pinheiro, “Poesia: um ato de resistência”. Mais que um pesquisador, Helder é um apaixonado por Poesia. Há quem diga que ninguém passa impune pela sua paixão. Ele contamina, apaixona, revoluciona. Além da presença do poeta e gestor público Jairo Cezar e da poeta e produtora cultural Mirtes Waleska, tivemos a importante intervenção da professora Yolanda Silva, que faz uma pequena revolução na Escola Estadual José Pinheiro com o projeto Jovens Blogueiros. A proposta da professora é simples e eficaz. A meninada lê e escreve resenhas sobre os livros lidos. Depois as resenhas são publicadas num blog. Mais tarde vieram os poetas Fred Caju (PE), André Ricardo Aguiar (PB) e Guilherme Delgado (PB) e Phillipi Wolney (PE) falando das artesanias livreiras, dos modos de fazer e publicar. Finalizando a parada, chegou a leitura antropológica de Leandro Durazzo (RN) sobre literatura e resistência. Saí de Campina certo que é preciso não dobrar os joelhos. João Mathias e Bruno Gaudêncio comandaram um evento grandioso. Conciso, mas denso. Muito denso.  Mesmo não repercutindo o quanto deveria. Servirá sempre como ponto de reflexão sobre os males e os bens que invadem o conturbado universo do livro e da leitura na Paraíba, no Nordeste e no Brasil. Bruno e João, Jairo e Mirtes, Yolanda, Fred, André, Helder, Guilherme… muitos mais. São timoneiros arrojados, nos ensinando que “navegar é preciso”. O mar não está pra peixe, mas é preciso navegar.

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