Lagoa dos Irerês e outras aves

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Trocar o nome das coisas nunca foi novidade. Mas, há os tropeços onde a originalidade sempre sangra. Por exemplo, a cidade de Não Me Toque, no Rio Grande do Sul, num determinado período foi motivo de piadas de mau gosto. Claro, bobagens midiatizadas. Diziam que quem nascia por lá seria “intocável”. Coisa besta de gente besta. Foi quando um desses “gênios da nomenclatura”, especialista em cartório, decidiu mudar o nome da cidade para Campo Bom. Durou pouco. A mudança bateu de frente com a identidade dos moradores. Orgulhosos de serem “Não-me-toquenses”. Resultado, Campo Bom que também é um bom nome, perdeu no voto, no campo da consulta popular. A cidade voltou a se chamar Não-Me-Toque. Nenhuma novidade. Geralmente o nome popular é o mais forte. Ninguém quase lembra que o nome do bairro de Mangabeira é Conjunto Habitacional Tarcísio Burity. O nome do lugar estava marcado, não pelas mangabeiras e pelas mangabas, mas pelo presídio que havia por lá. O povo não acatou o nome cartorial do que é hoje o maior bairro de João Pessoa. Mas, aí vem a própria João Pessoa que já foi Frederica e Filipéia de Nossa Senhora das Neves. Até 1930, se chamava Parahyba. Certamente um nome muito mais adequado para a identidade do lugar. Mais fácil para ser trabalhado, inclusive, nos roteiros de sonoridade exótica do turismo. Pois bem: veio o assassinato do presidente João Pessoa e algum esperto perrepista decidiu nocautear um fato histórico cheio de controvérsias. Ficamos, então, com João Pessoa que, alguns, não satisfeitos, transformaram em Jampa. O prefeito Luciano Cartaxo, com sua vontade de ser brilhante, decidiu que uma das suas obras seria diluir ainda mais a identidade da capital. Colocou uma peça de madeirite no marco zero do litoral da capital com a “criativa” frase “Eu coraçãozinho Jampa”. Gastou mais em iluminação led que em madeira para uma peça que já no primeiro ano começou a se dissolver.

Não se trata de ser politicamente correto. O fato é que a população faz suas escolhas ou absorve passivamente as mudanças. As homenagens feitas aos presidentes militares durante a ditadura foram por demais escancaradas. Bajulações sem caroço. Só polpa de subserviência sustentando o insustentável. Aliás, naquele tempo os prefeitos de capitais eram indicados pelos militares. Assim como os governadores. Se fala com desdém dos bairros Geisel, Castelo Branco, Costa e Silva e Valentina Figueiredo. No entanto, por mais que o Governo do Estado tenha colocado o nome de Eduardo Campos no viaduto do Geisel, para o povo continua e continuará sendo “Viaduto do Geisel”. O simpático bairro do Castelo Branco, para a moçada é apenas “Castelo”. Até as manifestações culturais absorveram o nome. Por exemplo o grupo Maracastelo. Um coletivo altamente politizado e progressista. E por aí vai. O fato é que a força política dos “perrepistas” se manteve de pé, mesmo depois da extinção do partido. Ainda hoje tocar no tema é delicado. A morte de João Dantas, assassino confesso de João Pessoa e a morte de Anayde Beiriz, a mais interessante personagem dos episódios grotescos e violentos que mudaram o nome e a bandeira da Paraíba, ainda são um mistério. Suicídio ou assassinato? Não importa mais. A história que mudou o nome da capital da Paraíba tem muito mais de vingança e descalabro que heroísmo. Aliás, não há heroísmo para as bandalheiras que tornaram a história da Paraíba um jogo passional. Ainda se fala aos cochichos quando o tema é Revolução de 30 aqui na Paraíba. Mas, enfim, prevalece João Pessoa e acho pouco provável que mude. Até porque mudar o nome das coisas não significa mudar as coisas.

Mas, os donos da história passeiam pelo tempo desde as capitanias. Solon Barbosa de Lucena assumiu o governo do Estado em 1916, por motivo de doença do então governador. Depois foi eleito em 1922 exercendo o governo até 1924. Nesse tempo criou em Campina Grande a Escola Solon de Lucena, onde hoje é a reitoria da UEPB. Reurbanizou a Lagoa dos Irerês e a transformou no que hoje é conhecido como Parque Solon de Lucena. Seria personalista o rapaz? Aliás, a mesma Lagoa que é objeto de algumas polêmicas por conta de um píer que virou “tablado”, de certas toneladas de lixo evaporadas. Mas, nada me tira da cabeça que o nome Lagoa dos Irerês é infinitamente mais significativo. Mesmo que, atualmente, predominem as garças. Não apenas trocaram o nome. Parece que também os Irerês foram expulsos. Enfim, a vida segue. Admirei ainda mais Fidel Castro quando, antes de morrer, decretou que não queria seu nome em nada. Nem precisa. Afinal, seu nome sempre estará na história. Aliás, único lugar em que os políticos deveriam querer seus nomes gravados.

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