Joab Rocha e a arte muito além das galerias

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O município de Areial, localizado na Zona da Mata da Paraíba, tem alguns diferenciais que podem ser apresentados como identidade local. Grande parte desses diferenciais vem de dentro. Do seio. Do tutano robusto do seu povo. O talento e o esmero de lutadores da arte e da cultura num município de cerca de oito mil habitantes. Falo das Crocheteiras de Areial. A cidade é referência na produção de crochê. Mas, também falo das suas quadrilhas juninas, premiadíssimas regional e nacionalmente. Nas escolas municipais, é visível a vontade de trabalhar a formação de leitores. Na gestão cultural, o jovem Diego vai dando o tom, buscando parcerias e em breve reabrirá um equipamento cultural de fundamental importância para o município que é a Biblioteca Pública Municipal. Povo generoso e hospitaleiro, como de resto o povo paraibano de Cabedelo à Cachoeira dos Índios. Todavia, um artista em especial se destaca pelo talento primoroso, pela capacidade de lidar com diferentes técnicas, com a exatidão de um mestre. Mesmo sendo ainda bem jovem.

Joab Rocha e a arte muito além das galerias
Adão e Eva, pintura de Joab Rocha

Falo do artista plástico Joab Rocha. Um cara que mergulha de forma espetacular na arte sacra, produzindo uma profunda relação das cores com a diversidade espiritual do imaginário cristão. Tudo numa exatidão que aproxima as complexidades da alma humana com a mais acabada noção de humanismo. Um artista que parte do realismo para transgredir seus próprios conceitos diante do olhar atento dos muitos admiradores que se somam a cada dia. A existência de Joab Rocha no cenário das artes plásticas brasileiras é reveladora e ao mesmo tempo denuncia um silêncio que se guarda por trás de uma sociedade transtornada pelo exercício permanente da banalização. A banalização do belo. A banalização da arte. A banalização da vida. Talvez a própria cidade não tenha ainda despertado para a genialidade do artista que abriga. Certamente a Paraíba o conhece bem menos do que deveria. Campina Grande, certamente, deve conhece-lo um pouco mais. Ele expôs no MIC, Museu Itinerante da Catedral. A verdade é que o mundo, talvez, o conheça melhor que nós, seus parceiros de caminhada e conterrâneos.

Joab tem a generosidade e a simplicidade dos grandes mestres. A cultura nordestina corre em suas veias. As traduções bíblicas das suas vertentes sacras traduzem ousadia, beleza e até mesmo a transgressão dos paradigmas religiosos. Por exemplo, a gravura que ilumina este artigo. Um outro olhar sobre Adão e Eva. Sobretudo, precisamos reconhecer que ele vem de um berço formador. Sua família transita entre diversas formas de expressão cultural. Os ciclos da vida se revelam no sangue. Os espetáculos do seu olhar sobre o mundo nasceram da influência paterna. O realismo da sua arte na vertente sacra, une o Oriente Médio ao Nordeste. Tudo num cruzamento de identidades que torna viva a religiosidade do povo, desde a origem, aos desvios messiânicos presentes, passados e futuros. A naturalidade de uma cultura ancorada na expressividade das imagens e no estreitamento da relação entre o sagrado e o profano. Aleijadinho já proporcionava essa leitura na formação do Barroco mineiro. Numa ambientação de experimentos, de estudos, de simulações dentro das mesmas técnicas tradicionais, se sobressai no artista a exatidão matemática das cores e das formas na construção de conteúdos de pura linguagem. Uma comunicação imediata com a sensibilidade de um público cada vez mais deslumbrado com a expressividade de um artista que não se contém diante das próprias habilidades. Autodidata, me parece que Joab vai sempre além. Experimenta a luz e a sombra de cada esboço que o carrega na pintura e na escultura. Tudo imerso num passeio que vai do óleo sobre tela, aos respiradouros e magias da escultura em cera. Enfim, eis mais um pouco da arte paraibana que merece ser vista e celebrada no mundo. O detalhe técnico que faz de Joab um pintor realista, também o faz transbordar para uma profusão de possibilidades cravadas no cerco de cada dia. É de arte que ele se veste. É de arte que se alimenta. São da Terra e do Universo as fontes que bebe. Talvez por isso tudo, o que Joab Rocha produz, termine por estreitar as distâncias entre a expressão do artista e o olhar cada vez mais atento do seu público.

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