‘Sua piscina está cheia de ratos’ – Breves anotações sobre a gestão cultural de Temer

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O atual ministro da cultura do governo Temer, Marcelo Calero, tem se mostrado bastante intempestivo e flutuante. Parece um “menino buchudo”, como se diz aqui no Nordeste. Como se já não bastassem os problemas naturais de ocupar uma pasta tão fragilizada pela instabilidade econômica e política que abala o país. Entrou para o MinC sob a extrema desconfiança do setor. Por algum motivo, parece decidido a comprar uma briga com o futuro. O homem é um diplomata de carreira, mas lhe falta exatamente diplomacia em algumas oportunidades. Apesar de ter vindo da Secretaria de Cultura do Rio, surge como um estranho no ninho. Se apresenta como apartidário, mas está alinhado aos setores mais atrasados da política. Não demonstra habilidade sequer para preservar sua imagem. Vaiado em Gramado. Vaiado em Petrópolis. Mostrou-se em desequilíbrio com a circunstância. Reagiu da pior maneira: trocando farpas com manifestantes. Mostrou ao Brasil que não sabe lidar com o contraditório. Parece não ter a mínima percepção dos motivos da sua rejeição. Mal começou e já perdeu o bonde da história.

De uns tempos para cá, talvez por orientações superiores, decidiu partir para o confronto com o ex-ministro Juca Ferreira. Ou seja: não está brigando com o passado, mas com o futuro. Esquece que dentro de algum tempo será ex-ministro. Suas contas serão analisadas pelo TCU, mas suas atitudes farão parte da história da gestão cultural em nosso país. E serão tristes alegorias de um sonho naufragado. O sonho, claro, começou com Gilberto Gil espalhando cultura pelo país. Mas, teve também a contribuição anterior de nomes ilustres como Celso Furtado, Mário de Andrade e outros raros. Com Gilberto Gil houve um processo de democratização experimental dos investimentos e das ações do Ministério da Cultura. Claro que com o gigantismo do país e com a pequena estrutura do ministério, muito ainda precisaria ser feito. Mas, reconheçamos que o bom baiano nos ofereceu régua e compasso. Com humildade e precisão. Jamais com a arrogância que permeia a relação de Calero com seus antecessores. Quando ele diz que Juca Ferreira demonizou a Lei Rouanet ele está sendo intelectualmente desonesto. Juca foi um defensor da descentralização dos investimentos da Lei. Esta era a sua briga com a Rouanet que reduz seus investimentos praticamente ao eixo Rio-São Paulo.

Não que a gestão Juca Ferreira tivesse sido um belo jardim orvalhado. Certamente não foi. Não apenas em razão da crise econômica – pois a crise política veio depois. Mas, pela pouca habilidade na condução do MinC nos anunciados e sentidos tempos bicudos. Da mesma forma que no primeiro governo Dilma, Ana de Holanda e depois Madame Suplicy, iniciaram um processo de desconstrução, Juca cometeu o grave erro de brigar com o passado antes de começar a construção do futuro. No entanto, nada fora de certa normalidade num processo político e administrativo. Para Juca Ferreira nunca faltou legitimidade. Ele é um homem talhado para bons debates e com um histórico enorme de boas construções. Já o Calero armou logo um ringue no seu gabinete. Chamou para a briga, não o ministro Juca, mas o país inteiro. Os artistas, produtores, fazedores de cultura espalhados pelos rincões. Publicamente faz o discurso de valorização dos funcionários efetivos para justificar demissões injustificáveis. Todavia, aqui na Paraíba tirou um técnico do comando do IPHAN e colocou um dos políticos mais desvinculados com a história cultural do Estado. Na prática, fazendo jus à criminalização da cultura e dos artistas berrada nas esquinas pelo neofascismo destes tristes e trôpegos trópicos. Sabíamos e sabemos que por trás das demissões de técnicos comissionados, apontada como “desaparelhamento”, na verdade o que estava e está havendo é um desmonte criminoso do MinC. Temer recuou, mas não perdoou as ocupações. Calero está levando adiante uma experiência vampiresca que somente teria sucesso no Ministério da Cultura da Transilvânia. Por exemplo: desmontou lamentavelmente a política do livro e diz que vai abrir bibliotecas nos novos condomínios do programa Minha Casa Minha Vida. Ora, se a ideia é essa, por que não começa logo nos conjuntos já existentes? Livros não faltam nem bastam, pois não se faz política para o livro sem incentivar a leitura. Ele mostra desconhecer completamente a problemática das bibliotecas brasileiras e as políticas desenvolvidas até aqui para o livro e a leitura. Mas, tem coisa pior. As demissões alcançaram também o desmonte da política pública construída junto com a lei Cultura Viva. A maior e mais democrática política de cultura já experimentada no país. E claro, exatamente por ser grande, grandiosa e democrática é cheia de problemas. Problemas que o ministro Calero não parece disposto a enfrentar.

Certa vez, almoçando com Chico Cesar, ouvi uma história muito interessante para se refletir sobre gestão pública no Brasil. Chico ao assumir a Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba, foi pedir conselhos ao mestre Gilberto Gil. “Cometa seus próprios erros”, disse o sábio baiano. Um ser humano iluminado e sábio. Extremo oposto do até então ilustre desconhecido Marcelo Calero. Um cidadão que entrou para o ministério declarando que queria dialogar. No entanto, se limita a bater boca com manifestantes. Desqualifica o direito legítimo dos protestos feitos em Cannes, pelo diretor, atores e atrizes do filme Aquarius. Desqualifica seus antecessores. Ou seja: diz uma coisa e faz outra. Perdeu cedo demais a credibilidade. Já que legitimidade ele jamais terá. Afinal, ele é fruto e semente de uma grande farsa que abala a jovem e frágil democracia brasileira. Por mais que se explique, em silêncio ou em manifestações ruidosas, a história jamais o perdoará. Para seu azar, como dizia Cazuza, “o tempo não para.”

*Por Lau Siqueira

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