Garotinho em desespero na hora da verdade e da justiça

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As cenas de desespero revoltoso do ex-governador Garotinho, do Rio de Janeiro, rumo à prisão numa ambulância ganharam o mundo. #Vouconfessarque para mim foram perturbadoras.

A face retorcida pelo desespero, a voz trêmula esganiçada de medo e indignação, o corpo imobilizado, o cerco implacável da curiosidade popular, a ansiedade da mídia… que cenas.

Elas causaram memes para redes sociais, produziram a certeza de que continham gritos meramente midiáticos de um impostor cínico e cruel, provocaram consciências sensíveis à reflexão sobre o que é justo e necessário e fizeram a festa dos que gostam de ver o osso exposto nas fraturas causadas por crises.

Cenas explícitas do que deve ser considerado uma indispensável necessidade, afinal tudo estava na órbita de uma ação saneadora, e do que deve ser visto como inevitável por ser consequência lógica, efeito da clássica lei da causalidade. Causalidade que impulsiona o nosso ir e vir  perceptual abstrato intuitivo, mas também empírico concreto, no cotidiano do que é pactuado por nós enquanto modelo social lógico, certo e bom. Ajoelhou? Tem que rezar.

Havia na ambulância um ser humano no limiar de vários mundos: o abissal abismo da perda da liberdade, o encontro surpreendente com a indiferença, melhor dizendo, impessoalidade do poder coercitivo estatal, o brutalismo de ser pouco mais que um objeto nas invisíveis mãos mecânicas de um processo judicial.

A TV exibiu e a Internet viralizou a síntese da trajetória da sociedade em busca de uma forma equilibrada de conter o ímpeto criminoso, de proteger a coletividade, de estabelecer a punição na medida adequada ao ilícito, de explicitar providências, de impor restrições a quem agrediu o pacto ético implícito nos ritos da sociabilidade contemporânea.

Na verdade, as cenas são históricas.  Simbolizam o pior e o melhor do Brasil. Para o pior, temos a gritaria autoritária de quem se acha acima da lei. Cidadãos, a exemplo daquele que gritava na ambulância, imantados ainda por tradições culturais anacrônicas. Tradições impregnadas de práticas políticas discriminatórias a serviço de um patrimonialismo que confunde prerrogativa com privilégio, que privilegia o interesse de uma minoria dominante contra a necessidade urgente da maioria tutelada, que se vê superior por ter poder cultural e econômico e acesso ao que é melhor. Esse tipo muitas e muitas vezes criminoso está na ambulância a caminho do calabouço da superação histórica.

Para o melhor das cenas, vislumbramos, naquele esbater de inseto contra o vidro da ambulância da justiça, a tenaz republicana que pressiona por igualdade na diversidade. Há democracia naquela cena cheia de temores, tremores e estertores , como há prevalência da vida na cena de dor e sangue do momento do parto.

A democracia como sistema político e a república como forma de governar pressupõem a prevalência da justiça contra a impunidade, impunidade que é o cavalo de Troia do estado democrático de direito. Esse cavalo me lembra um livro exemplar da historiadora Bárbara Tuchman, “A marcha da insensatez”, insensatez que continua a vigorar na política. Os gritos de Garotinho ecoam a insensatez da corrupção de quem acredita na compra de votos. Aos poucos, essa crença, pura estupidez, vai passar.

 

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