“Foi muito difícil dizer adeus”, diz criador do Orkut

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O Brasil se apaixonou pelo Orkut à primeira vista. Lançado em 2004, o site foi o ponto de partida para os brasileiros se descobrirem seres aficionados por redes sociais. Não é à toa que o país mais popular do Orkut era o Brasil, contando com mais de 30 milhões de perfis em seu auge. Anos antes de o Facebook cogitar entrar em terras brasileiras, foi o Orkut que reuniu em uma mesma rede usuários com passados, interesses e classes sociais distintas. Permitiu que encontrássemos virtualmente ex-colegas de escola e familiares distantes. Criou tribos, amizades e formou casais improváveis que moravam a centenas de quilômetros de distância. Foi o Orkut também que ajudou a popularizar atividades como fuçar em fotos da vida alheia, escrever depoimentos amistosos e se engajar em fóruns. E, não menos importante, foi o Orkut que deu corpo a uma forma de humor tão popular nos dias de hoje: o meme.

O Orkut, cujo nome é o mesmo de seu criador, o engenheiro turco Orkut Büyükkökten, fez tanto sucesso por aqui que o Google Brasil assumiu o controle mundial da marca em 2008. Mas, com o avanço global do Facebook e sua popularidade monstruosa, a rede foi perdendo espaço, até ser encerrada em 2014. Agora, Orkut – o Büyükkökten – traz boas notícias a quem sente falta de tempos menos extremistas nas redes sociais. Aos 41 anos, ele está trazendo para o Brasil a Hello, que tem como lema permitir “amizades profundas”. Em entrevista a ÉPOCA, ele explica o conceito da rede, dando uma cutucada no Facebook. “A Hello foi pensada para promover novas amizades e não para publicar o que pensamos que o mundo quer ver.”

ÉPOCA –  Brasileiros sentem falta do Orkut até hoje. O que você lembra sobre o tempo em que a rede social era um dos sites mais populares do Brasil?
Orkut Büyükkökten –
Todos sentimos falta do Orkut. Juntos, nos expressávamos sem julgamento, sentíamos a alegria de criar novas amizades e, em algumas instâncias, encontrávamos amor e companhia. Foi uma experiência incrível fazer parte dessa viagem com todos. A ideia é repetir a aventura com a Hello.

ÉPOCA – Você se lembra de algum fato interessante sobre usuários brasileiros? Como foi sua visita ao Brasil?
Büyükkökten –
Visitei o Brasil em 2007 e passei um tempo maravilhoso. Lembro de como me apaixonei pelo fato de as pessoas serem amigáveis e extrovertidas, e também pela cultura vibrante e pela beleza do país. Uma das coisas que me chamaram a atenção foi como as pessoas são genuínas. Foi ótimo experenciar a cultura de pessoas que são tão próximas umas das outras, animadas, otimistas e que amam celebrar a vida.

ÉPOCA –  Como você se sentiu quando o Google decidiu encerrar o Orkut?
Büyükkökten –
Foi um momento triste para mim. O Orkut se tornou uma comunidade de mais de 300 milhões de pessoas. Foi muito difícil dizer adeus.

ÉPOCA – O que você tem feito desde que saiu do Google?
Büyükkökten –
Deixei a empresa em março de 2014 para criar a Hello. Eu estava motivado a criar uma rede social que conectasse pessoas com paixões similares. Uma rede criada por amor, não por “likes”. A Hello é a evolução do Orkut.

ÉPOCA – Qual é a sua opinião sobre o Facebook hoje? Você acha que o serviço pode ter o mesmo destino que as redes do passado, como Myspace, Friendster e Orkut? Se sim, que site lideraria a competição para se tornar o “novo” Facebook?
Büyükkökten –
O Facebook serve como uma ótima plataforma para comunicar atualizações da vida para seus amigos próximos e para a família. Também serve como um diretório global de pessoas, semelhante ao GeoCities no passado. Mas há algo de superficial. A página das pessoas no Facebook, muitas vezes, é como elas querem ser percebidas socialmente e não exatamente como elas são. Quanto ao futuro, acho que o Facebook e outras redes sociais têm suas próprias estratégias e propósitos, então é difícil dizer quem será o próximo Facebook.

ÉPOCA – Quais são as principais diferenças da Hello em relação a outras redes sociais?
Büyükkökten –
As redes sociais hoje não fazem um bom trabalho em recriar a forma como conhecemos e nos conectamos com as pessoas na vida real, através do compartilhamento de interesses e de paixões. As redes a que somos mais familiarizados [como Facebook, Snapchat, Twitter, Reddit e Instagram] são usadas, principalmente, para distribuir conteúdo, mensagens privadas, discutir interesses individuais ou comentar e compartilhar em fóruns de discussão. Entretanto, elas não providenciam um ambiente em que podemos nos conectar facilmente com pessoas com as mesmas afinidades e assim fazer novos amigos. A Hello foi criada para preencher essa necessidade. Os usuários poderão compartilhar suas criações, ideias e experiências com comunidades que têm as mesmas afinidades, para assim criar novas conexões e amizades. O interessante da Hello é a experiência de descobrir comunidades de amigos que tenham algo em comum com você.

ÉPOCA – A Hello quer promover “amizades profundas”. Você considera que as outras redes sociais mantêm relações superficiais?
Büyükkökten –
Como eu disse, em muitos casos, o que compartilhamos na internet representa uma imagem que queremos passar, e não o que realmente somos. Queremos que a Hello seja uma comunidade em que todos possam se sentir confortáveis em serem verdadeiros, onde todos se sintam bem-vindos e incluídos, e onde ninguém se sinta julgado.

ÉPOCA – Qual será o competidor de sua rede social? A dimensão do Facebook não intimida a criação de uma nova plataforma?
Büyükkökten –
Vivemos em um mundo de hiperconexão, e ainda assim lutamos para conhecer pessoas novas. Moramos em cidades com milhões de pessoas e ainda assim estamos sozinhos atrás de nossas telas. Acredito que quanto mais nos conectamos, mais bonito o mundo se torna. A Hello quer conectar o mundo pelas afinidades e paixões, e isso é o que nos torna diferentes de outras redes sociais. Não viemos para competir com alguém, nós simplesmente queremos construir uma comunidade de pessoas que estejam à procura de um jeito novo de conhecer pessoas engraçadas e interessantes.

ÉPOCA – Por que a Hello ficará restrita ao aplicativo e não terá versão para navegador?
Büyükkökten –
Tudo está em transição para o mundo móvel: redes sociais, TV, música, notícias, buscas, compras etc. Construímos a Hello em um aplicativo móvel com a nova geração em mente. Adoraríamos estar presentes em navegadores da web no futuro.

ÉPOCA – Como está sua expectativa sobre a recepção dos brasileiros, já que o Orkut era extremamente popular aqui?
Büyükkökten –
A comunidade Hello é amigável, sociável, receptiva e pronta para novas experiências. Amo a cultura brasileira e estou empolgado para lançar a Hello nessa comunidade vibrante.

“Foi muito difícil dizer adeus”, diz criador do Orkut

ÉPOCA – A função Persona promete reunir pessoas que tenham os mesmos interesses. Parece uma ótima ideia, mas não existe o risco de isolar as pessoas em bolhas, como o Facebook faz?
Büyükkökten –
  A função Persona é criada pelo sistema, não por seus membros. Isso evita o problema de segmentação que vemos em outras tantas redes sociais que permitem ao usuário criar grupos e comunidades. Na Hello, se você é fã de futebol, só há uma Persona para isso. Não temos centenas de comunidades de futebol para as pessoas escolherem. Isso agrupa as pessoas ao invés de isolá-las.

ÉPOCA – Será possível escolher ou adicionar diferentes interesses depois do primeiro registro na rede social? Qual é o aspecto mais inovador da Hello?
Büyükkökten –
Com o passar dos anos, muitos de nós mudamos nossos interesses e paixões, e queremos fazer essa transição sem esforço. Com a Hello, você sempre estará apto a entrar ou sair de suas Personas para estar conectado com sua mentalidade atual.

As informações são da Época.

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