Questionador e provocativo, Vandré fala de política, arte e reflete sobre a indústria cultural

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    Geraldo Vandré voltou a João Pessoa depois de 20 anos afastado da sua cidade-natal.  A última vez que viera a capital paraibana foi em 1995, ministrar uma aula magna na Faculdade de Direito da Universidade Federal da Paraíba. Vandré é advogado de formação, concluiu Direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro em 1961. A música, porém, foi algo que consumiu seu tempo, sua energia, seus esforços. Em 1966, com a música Disparada, composta por ele em parceria com o músico Theo de Barros e interpretada por Jair Rodrigues, venceu o primeiro lugar do II Festival da Música Popular Brasileira (TV Record), empatada com A Banda, canção de Chico Buarque, então jovem cantor e compositor ainda pouco conhecido.

    Foi também pelo seu trabalho como músico que Vandré foi perseguido pela Regime Militar do Brasil. Sua canção Pra Não Dizer Que Eu Não Falei das Flores, também conhecida como Caminhando e Cantando, se tornou um hino da resistência à ditadura. Por causa dela, Vandré foi perseguido e teve de se exilar do Brasil, assim como outros artistas como Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil. Voltou ao país em 1973, mas ao contrário dos outros artistas citados, Vandré abandonara a carreira musical. Deste então vive recluso, fazendo raras aparições públicas. Passou mais de duas décadas sem dar entrevistas, quebrando o silêncio numa histórica entrevista concedida ao jornalista Geneton Moraes Neto.

    Em março de 2014, subiu ao palco ao lado da cantora americana de folk music Joan Baez, famosa pelo ativismo político, mas não cantou. Em 2015, Vandré completou 80 anos. Por ocasião do seu aniversário, foram lançadas duas biografias não-autorizadas, que ele critica com veemência. “Cheia de erros, cheia de mentiras”, diz sobre uma delas. Ele retornou a João Pessoa em dezembro desse ano para participar do 10º Fest Aruanda do Audiovisual Brasileiro, onde foi um dos homenageados. Estava mais solícito, deu entrevista para blogs, TVs, participou de um debate do Festival que durou mais duas horas e onde respondeu diversas perguntas do público. Riu, descontraiu, fez troça.

    Essa entrevista ao Paraíba Já foi concedida no hotel onde ele esteve hospedado em João Pessoa, em frente a orla da Praia do Bessa. Resfriado, preferiu falar na parte externa do prédio para fugir do ar condicionado. Quando digo o nome do site que estou representando ele brinca “Paraíba Já? E antes era o quê?”. Olha ao redor e se queixa da mudança da paisagem que conhecera quando vivia na cidade. “Acabaram com o coqueiral aqui do Bessa. Construíram ruas, edifícios, fizeram a mesma coisa em Ipanema, Copacabana, fico muito triste com isso. Mas acontece em todo lugar”, diz ele, um tanto desiludido. A conversa fluiu naturalmente e falou sobre vários assuntos, desde ditadura, a relação com os pais, música, cinema, política, fez colocações bem-humoradas, oscilou entre a seriedade e a informalidade. Foi assertivo e vigoroso.

    Como foi para você retornar a João Pessoa e à Paraíba, sua cidade e seu estado natal, depois de 20 anos?

    É sempre a mesma coisa, mas dessa vez teve uma diferença grande, bastante grande. Então não é a mesma coisa. Desculpe tenho de retificar.

    Você veio a convite do Fest Aruanda como um dos homenageados. Como foi feito esse contato?

    Foi o organizador do Festival, o Lúcio (Vilar). Ano passado eu fui convidado, mas estava doente e não pude vir.

    O que primeiro vem à sua cabeça quando você pensa na palavra cinema?

    Flash Gordon, Tarzan, outras épocas.

    Você foi responsável pela trilha sonora do filme A Hora e a Vez de Augusto Matraga, de Roberto Santos, e de Cinco Vezes Favela, ambos filmes clássicos e ícones do Cinema Novo. Como foi essa experiência?

    A minha experiência foi no caso do Matraga, com o Roberto Santos (diretor do filme). No caso de Cinco Vezes Favela eles usaram a canção que fiz com o Carlos Lyra como música tema, não tive nenhuma relação direta (com a criação da trilha).

    Questionador e provocativo, Vandré fala de política, arte e reflete sobre a indústria cultural
    Ao lado de Lúcio Vilar, coordenador do Fest Aruanda, Vandré é recepcionado no aeroporto, na chegada a João Pessoa. Seu semblante demonstra alegria por estar de volta a sua terra natal.

    No debate do Fest Aruanda você declarou que sua carreira de músico se encerrou no dia 13 de dezembro de 1968, dia em que foi promulgado o AI-5. O que te levou a decisão radical de se afastar da música?

    Parei com as atividades (profissionais), mas continuei escrevendo, compondo músicas, em pequenos grupos.  Comercialmente, não tenho interesse de fazer uma carreira no Brasil como eu fazia, porque cheguei à conclusão de que os problemas que eu tive foram criados pelo cenário comercial. Eles entraram bastante num processo de clandestinização da cultura, não paga imposto, vai lá faz o que quer. Essa história é muito triste. É geral, não é só minha, é um problema brasileiro.

    Qual a relação e o espaço que a música tem na sua vida hoje?

    A música pra mim deixou de ser arte passou a ser ciência, mais precisamente neurocardiologia, ritmos do coração. Isso é um pouco complicado de explicar, mas não é difícil de entender. O coração tem um ritmo e o ritmo é parte da música.

    Há algum cantor, compositor ou banda de hoje que você conheceu e gostou? Pode ser alguém da MPB dos anos 90, por exemplo. Conhece o Chico César?

    Vi o Chico César uma ou duas vezes na televisão, mas não conheço pessoalmente. Eu vejo pouco televisão.

    Artistas de hoje, então, o senhor não conhece algum que te chamou atenção?

    Não, praticamente ninguém.

    Você declarou recentemente que as duas biografias lançadas esse ano sobre você eram “exploração da personalidade” e reiterou sua posição contra as biografias não-autorizadas, criticando a decisão do STF e destacando o conceito constitucional de persona pública e persona privada. Você não acha que pela sua importância para a cultura e a história do Brasil, uma biografia ao seu respeito é relevante e de interesse público?

    Público no sentido de ser famoso, ser conhecido, isso é uma coisa, é completamente diferente do que eu falei. Eu falei direito público e direito privado. Pra quem estudou um pouco de Direito não é difícil de entender. Direito público é tudo que pertence ao Estado, que diz respeito ao Estado, direito privado são os direitos particulares. Sobre as biografias (não-autorizadas), eu acho que é exploração comercial, é especulação, é delinquência mesmo, e o Supremo está errado.

    Leu as biografias que foram escritas sobre você?

    Uma delas eu li, e não vou dizer qual foi, estava cheia de erros, cheia de mentiras. Mas o problema principal não é estar certo ou estar errado. O problema é que a biografia integra a personalidade artística, faz parte da personalidade artística. E a personalidade artística para o artista é um objeto da sua comercialização, da comercialização da sua carreira.  Sem a personalidade artística não existe o artista, comercialmente falando. A personalidade artística é direito privado e no caso pertence a mim, que foi quem criei essa personalidade.

    Na tua fala no debate do Fest Aruanda você criticou a visão de que a ditadura militar foi algo exclusivo dos militares. Você concorda então, que nós tivemos no Brasil uma ditadura civil-militar, com o apoio dos grandes empresários e de parte da sociedade-civil brasileira?

    Certamente. O Golpe de 1964 não foi feito pelos militares somente. Foram eles que assumiram essa responsabilidade – alguns, não todos. Mas os interesses que moveram aquele movimento era interesses de uma parte da sociedade que queria ganhar mais, que não estava satisfeita com o que estava acontecendo. Não foram os militares exclusivamente os responsáveis. Se fosse apenas uma questão militar continuaria tudo igual e já mudou. Agora o que acontece de ruim, nesses casos, já não se imputa mais aos militares porque eles não se deixaram mais implicar. Parece que aprendemos a lição. Ao menos uma parte da lição aprendemos.

    Questionador e provocativo, Vandré fala de política, arte e reflete sobre a indústria cultural
    Na cerimônia de encerramento 10º Fest Aruanda, Vandré recebe o Troféu Pedra Bonita de Contribuição às Artes e a Cultura Nordestina e o Troféu Aruanda pela contribuição ao cinema brasileiro pela trilha sonora de filmes como A Hora e a Vez de Augusto Matraga

    O grupo Quarteto Novo é considerado um marco na história da música brasileira. A canção “Disparada”, que venceu o Festival da Canção de 1966 junto com A Banda, do Chico Buarque, uma verdadeira obra-prima. Como você avalia hoje o sucesso da banda?

    O Quarteto Novo não fez o sucesso popular. O Quarteto Novo foi criado por mim. Eu reuni os músicos e consegui a contratação deles pela televisão (TV Record). Eu tinha um programa de televisão pra fazer. Depois do Disparada, eu fui convidado pela televisão pra fazer um programa e eu tinha um certo poder de escolha. Uma das coisas que eu escolhi foi ter músicos da melhor qualidade pra fazer a costura (sonora) toda do programa, fazer toda a base musical do programa.

    Você disse que não existe música de protesto e sim música, um trabalho artístico. Citou cantoras como Joan Baez, a qual você fez uma participação num show, artistas cujo trabalho ganhou essa conotação. Você acha que seu trabalho com músico foi rotulado como “canções de protesto” indevidamente?

    Claro. Canções de protesto é um rótulo que surgiu (nos EUA) com cantores como Peter Seeger, Joan Baez. No Brasil eu acho que não existe canção de protesto.

    Nos anos 60, o astro da folk music Bob Dylan era considerado “o porta-voz da revolução”. Dylan refutou esse título e disse que queria apenas cantar. Involuntariamente, pelo teor e pela simbologia das suas composições ele foi transformado num ícone da luta política. Você acha que aconteceu a mesma coisa contigo? O seu trabalho musical, então, não era algo político?

    Pra mim não é assim. Pra mim era política mesmo. Era arte primeiro, mas era política também. Vou deixar uma pergunta:  política é ciência ou é arte? É mais arte ou é mais ciência?

    Um dos seus novos projetos musicais é uma parceria com a Orquestra Sinfônica da Paraíba e tem apoio do Governo do Estado. Como foi feita essa articulação?

    Eu tive dois encontros com o governador Ricardo Coutinho e eu coloquei essa possibilidade e ele gostou muito da ideia e, em princípio, ficou acertado que vamos fazer. Agora eu preciso acertar detalhes, ver data, essas coisas. Mais quatro ou cinco meses eu acho que se resolve.

    Então o projeto deve ser lançando em meados de 2016?

    Claro, claro. Pra mim a melhor época pra vir pra cá é mesmo o inverno, pra fugir do frio (de São Paulo, onde ele mora), que eu não gosto do frio. A minha natureza que não gosta, né? Tem gente que gosta do frio, pra vender, comprar casaco. Eu não sou comerciante de peles. A temperatura do ser humano no ventre materno pra germinar é 38 graus, tem gente gostando de viver a 5 graus, 7 graus.

    Durante um debate sobre o filme Chatô – O rei do Brasil, uma rápida participação respondendo a uma provocação feita pelo público, Vandré faz uma espécie de manifesto sobre o cinema brasileiro que, segundo ele, nunca foi uma indústria e sim fruto de esforços de artistas.

    Durante o debate você recitou a canção “Fabiana”, composta por você em homenagem a aeronáutica. Essa composição causou polêmica e despertou questionamentos sobre sua visão política em relação as forças armadas. Como você vê, afinal, o papel das forças armadas na sociedade?

    Não existe sociedade sem forças armadas. Todas as sociedades mundiais se organizam como Estado. O Estado tem um poder coercitivo que se faz valer sobre todos.  Em todos os lugares é assim. As Forças Armadas fazem parte da organização de todos os Estados que existem no mundo. Eu não conheço nenhum Estado que não tenha forças armadas. Nunca ouvi falar.

    Ao falar do seu pai durante o debate do Fest Aruanda, você se emocionou. Em 2010, na entrevista publicada pelo jornalista Geneton Moares Neto, diz que você fazia visitas constantes a sua mãe, no Rio de Janeiro. Qual a maior referência dos seus pais na tua trajetória?

    É um pouco difícil falar sobre isso (emociona-se). Mas eu escrevi um pequeno texto que talvez esclareça. É uma espécie de dedicatória:

    Ao meu amor Brasil. Aos meus pais que me criaram, me educaram, me instruíram e me prepararam pra viver esse amor.

    Na sua canção mais famosa, Pra Não Dizer Que Eu Não Falei das Flores, também conhecida como Caminhando e Cantando, há várias referências e simbologias políticas. Quando você compôs a letra, você quis captar o sentimento coletivo da sociedade brasileira contra a ditadura militar?

    Caminhando foi um reflexo, um resultado direto da passeata dos cem mil, no Rio de Janeiro. Saíram mais de 100 mil pessoas às ruas, houve um recuo imediato das forças de repressão (do Regime Militar). Primeiro houve um incidente policial no Restaurante Calabouço, onde mataram o estudante Edson Luís. Em função disso, houve uma missa de sétimo dia na Candelária e na saída da igreja jogaram a cavalaria em cima do povo. O Rio de Janeiro inteiro, então, se levantou. Foi praticamente uma manifestação da classe média do Rio de Janeiro. Muito importante. Eu estava no Rio quando houve a passeata dos 100 mil. Por acaso eu tinha ido de São Paulo ao Rio pra resolver um problema de saúde e fui dar uma olhada da passeata, de fora. Eu não participei da passeata eu fui ver. E deu naquilo.

    Então a canção foi inspirada na passeata, naquele sentimento?

    Caminhando e cantando e seguindo a canção / somos todos iguais braços dados ou não… Pelas Ruas marchando indecisos cordões… é a passeata dos 100 mil.

    Na tua visão qual a principal causa da crise política que o Brasil vive hoje?

    Pra mim é muito difícil falar dessas coisas, eu não me arrisco.

    Consegue enxergar alguma semelhança com o Brasil do final dos anos 60?

    Tem muitas coisas parecidas, mas não dá pra especificar.

    O que te motivaria a voltar aos palcos e hoje e a compor novamente?

    Eu acho que é muito difícil porque mudou a realidade em termos de público. Não existe mais público, virou tudo massa. No lugar dos Festivais da Canção, que eram destinados a promoção da cultura nacional, o que existe hoje? Rock in Rio. Pois é, falar mais o que? Dizer mais o que diante disso? Rock in Rio neles!

    Fechando

    Vandré encerra a entrevista de forma bem-humorada. Entra novamente no Hotel. Parece estar tranquilo. O mito está vivo, lúcido e ainda com disposição e opinião forte, mais ainda com uma aura emblemática, repleta de simbolismos latentes. Vandré foi Vandré, simplesmente.

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