Entrevista: Ex-secretário de Comunicação da PMJP diz que Cartaxo virou as costas para o PT

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    Entrevista: Ex-secretário de Comunicação da PMJP diz que Cartaxo virou as costas para o PTO sociólogo, jornalista, professor do curso de Direito do Instituto de Educação Superior da Paraíba (IESP) e ex-secretário de Comunicação da Prefeitura de João Pessoa nos dois primeiros anos da gestão do prefeito Luciano Cartaxo (PSD), Marcus Alves, concedeu entrevista exclusiva ao Paraíba Já. Ele falou da saída do prefeito do PT e comentou as alegações dadas por Cartaxo para deixar a legenda petista.

    Marcus Alves ocupava até pouco tempo a Coordenadoria de Projetos Especiais da Prefeitura de João Pessoa, quando anunciou seu desligamento da gestão do então petista. Em nota divulgada à imprensa no último dia 2, ele alegou que estava entregando o cargo porque não encontrava mais espaço para ser escutado e, por isso, teve “a humildade” de se afastar.

    A ENTREVISTA

    – Para o Senhor, que foi aliado de Luciano Cartaxo e participou da equipe ativamente, como avalia essa mudança de partido feita pelo prefeito?

    – Eu vinha trabalhando, junto com outras pessoas, desde o ano de 2010/2011, um processo de construção de autonomia e protagonismos dele e do PT. Acho que isso está se perdendo. Em um momento de crise econômica, de virtude política pela qual passamos, as lideranças verdadeiramente fortes precisam dar segurança e tranquilidade às instituições políticas. Não fazer o inverso e desacreditar os partidos. Tenho falado já há algum tempo que o governo Dilma neste último ano não é um governo que podemos colocar debaixo do braço e sair pela cidade com orgulho. Está difícil. Mas não é o pior dos governos que o Brasil teve desde a redemocratização. Encontrando-se a corrupção, precisamos fazer a Justiça funcionar, os órgãos de controle e policiais estão ai pra isso.

    A cidade de João Pessoa não sofre diretamente com esses processos de corrupção. O sofrimento é mais econômico, mais estrutural. Veja que programas sociais continuam vindo do governo federal, Minha Casa, Minha Vida está aí. Dilma há poucos dias esteve aqui para entregar casas. Veja o que se comenta: que o prefeito saiu dos braços de Ricardo e caiu no colo de Cássio. Onde fica a autonomia de liderança conquistada a duras penas há pouco mais de três anos? Não considero ruim apenas sair de um partido, qualquer que seja ele. Mas é preciso considerar a forma, o método de saída. Isso de sair às escondidas não deixa de ser estranho.

    – Uma das alegações do prefeito é de que a saída do PT para o PSD foi por sentir-se ameaçado com a rejeição do governo Dilma. Faltou discernimento sobre separar o momento do PT nacional e estadual?

    – É muito preocupante esse discurso de que João Pessoa estaria sendo ameaçada, perderia com a permanência no PT. Perderíamos o que? Nos faltou o BRT, por causa do governo federal? E as creches construídas não são a partir de verbas federais? E as habitações do Minha Casa Minha Vida? Todos são parte de programas, ações e políticas públicas do governo Dilma. É preciso inovação, disposição para saber defender essas políticas públicas, separando-as de processos de corrupção quaisquer que sejam eles. A corrupção deve ser combatida com firmeza pelos órgãos de controle e pela Justiça. É preciso também discutir saídas políticas de forma coletiva, não individualizada.

    – Então o discurso de que trocou de partido por conta de escândalos do PT não seria o principal motivo?

    – Fica claro que isso aparece como um discurso, mas não tem sustentação. A saída deve ser vista mais como uma estratégia eleitoral, como se política fosse apenas uma matemática. Política é um processo de formação e disputas por ideias, projetos e ações para o bem comum. Não apenas a arte de somar tempo de televisão, expectativas construídas em pesquisas.

    Entrevista: Ex-secretário de Comunicação da PMJP diz que Cartaxo virou as costas para o PT

    –  Depois de 20 anos de partido e o sonho de ser prefeito, o Senhor acredita que Luciano Cartaxo está renegando sua própria história? Há quem diga que ele tirou do partido o direito de gozar o tempo regimental de um mandato, o único que o PT teve à frente da Prefeitura de João Pessoa. O que o Senhor acha dessa tese?

    – Vejo as coisas assim: na política a gente precisa apostar no projeto democrático e republicano. Não devemos fazer política pelo jogo simples de conquista do poder pelo poder. Temos vários casos de líderes que foram por esse caminho e não entraram na história. Ou quando entram, ficam nela de forma vergonhosa. Veja, o PT tinha o único prefeito em todo Nordeste. Ajudou ele a construir isso, desde 2011. E agora recebeu, como retribuição a virada de costas. Isso vai marcar muito a simbólica dentro da política e do PT. E, sabemos, a imagem, o símbolo é muito importante na política. Às vezes a simbólica tem quase um poder sagrado.

    – Em seu discurso durante a entrevista coletiva, o prefeito repetiu exaustivamente de que sua decisão aconteceu não por ele e nem por partido, mas pelo bem e em prol do desenvolvimento de João Pessoa. Qual a sua avaliação sobre as justificativas do prefeito?

    – Veja qual é o tipo de perda ou ameaça que a cidade de João Pessoa teria com a permanência dele no PT? Nenhuma. Ao contrário. É o PT quem governa este país. Está passando por dificuldades? Todos sabemos que sim, mas o verdadeiro trabalho político é para suportar e superar estas dificuldades. Ou mesmo construir uma alternativa democrática, que nasça das forças progressistas. Talvez a formação de um bloco histórico, de perfil popular.

    – Mesmo porque quando Cartaxo foi eleito, o PT passava pelo auge do escândalo do Mensalão, não foi?

    Exatamente. E tem outra questão, importante. A corrupção como vem sendo divulgada hoje afeta muitos partidos, não exclusivamente o PT.

    – O PSD na Paraíba apoia o senador Cássio Cunha Lima, que é do PSDB, partido antagônico ao PT nacionalmente. Luciano Cartaxo tem na sua base de aliados três vereadores tucanos. Apenas considerando isso já denota uma certa condescendência, um flerte para o PSDB?

    –  Que seja, mas a virada de posição quebra, de muitos modos, as relações com o PT. Fragmenta a confiança que deve ter entre iguais, entre companheiros de jornada. E política também se faz de confiança, de lealdades. Insisto nisso: a saída política para uma situação de crise não deve ser egoística, individualista, mas coletiva. Debatida, dialogada com forças, com pessoas, grupos e instituições. É assim em toda prática democrática e republicana que o Ocidente conhece. Veja mesmo em casos extremos, como foi o caso do fim dos partidos comunistas em vários lugares do mundo (incluindo Brasil e Paraíba) passa pelo bom debate e pela democratização dos interesses e decisões.

    – Haverá a quebra de confiança da população de João Pessoa?

    – Isso só o tempo pode nos mostrar. Claro que vai depender muito das respostas e tensões que as forças políticas possam criar durante os próximos meses.

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    – O líder da base do prefeito Cartaxo, vereador Marco Antônio (PPS), disse que agora vai ser mais fácil de se fazer alianças, inclusive com a oposição. É possível dobrar agora Raoni Mendes (PDT), Lucas de Brito (DEM) e Renato Martins (PSB)?

    – Olha esse tipo de questão passa necessariamente por uma resposta pessoal dessas lideranças. Vai depender dos projetos e dos arranjos eleitorais de cada um. Acho pouco provável que um vereador como Renato Martins faça esse tipo de adesão, até porque ele tem forte vínculo com PSB e com o governador. Mas eu insisto numa linha de interpretação que hoje a nossa energia deve ser focada menos em projetos pessoais, individuais e mais coletivos.

    – Os petistas alegam que não sabiam da decisão e que foram pegos de surpresa, inclusive o deputado Anísio Maia que exercia um forte papel no front de defesa do prefeito. Podemos dizer que houve traição? E o que Luciano Cartaxo pode esperar após essa decisão? Há alguma possibilidade do candidato do PSB ascender?

    – As primeiras reações foram mais emocionais. Recebi até comentário de pessoas de São Paulo e Brasília, diretamente vinculados ao PT nacional chamando-o de traidor. Até a expressão “Um rato”, usaram. Claro que a tendência é haver um afastamento da cena e começar a aparecer avaliações mais formais, mais políticas, o que não impede de se mostrar que a imagem dele sai muito arranhada e machucada no campo progressista. Veja que há uma aliança em curso com o campo político que insiste no afastamento da presidenta Dilma (seja por renúncia ou impedimento). Que tipo de explicação ele vai poder dar? Penso que era muito mais fácil explicar e defender o PT, até porque ele não tem vínculo nenhum com corrupção, do que agora ficar preso às explicações junto com forças conservadoras. O PT deve reagir, claro.

    Quanto ao PSB, creio que vai esperar para ver como isso reforça sua linha de defesa equilibrada do governo federal. Veja que nos últimos meses foi o governador Ricardo a única liderança forte da Paraíba a defender a presidenta Dilma. Fez isso sem abrir mão da crítica, inclusive. Evidente que a tendência será o governo federal se aproximar muito mais do PSB na Paraíba, exatamente pela confiança, lealdade democrática em tempos de dificuldades como o nosso. A amizade cívica é, historicamente, maior até que a Justiça. Isso já nos mostrava os clássicos da filosofia e da política. O resto é andar na corda bamba e ficar sem rumo sempre que uma crise aparece. Isso não ajuda a democracia e a república.

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