O poeta Carlos Drummond de Andrade nunca esteve em Serra Redonda. Aliás, que eu saiba, nunca esteve na Paraíba. Diferente do modernista Mário de Andrade que veio como pesquisador de cultura popular. Da sua passagem se tem registro e memória pelo menos em Catolé do Rocha, Pombal e João Pessoa. Todavia, o poeta mineiro tinha uma ligação de afeto literário muito especial com a Paraíba. Coisa que pouca gente sabe. Drummond mantinha correspondência regular com a escritora e crítica literária Nevinha Pinheiro, moradora de Serra Redonda e autora do romance “A crucificação do diabo”, publicado pela Editora Moderna.  Nevinhamanteve farta correspondência também com Érico Veríssimo, Josué Montelo e outros nomes relevantes da história da literatura brasileira.

 

Eis uma notícia esquecida quer surge como grande novidade. Essa‘antiga novidade’chega cercada de fatos especialíssimos. Algo que demonstra a grandiosidade silenciosa do povo paraibano. Terra de grandes intelectuais e artistas reconhecidos internacionalmente. Descobri que Drummond nunca esteve em Serra Redonda, muito recentemente. Foi no lançamento do livro “Echo da Serra”, de Dionée Pinheiro. Aos noventa anos, Dionée guardava por décadas um  sonho que, na verdade, era de Nevinha, sua irmã. O desejo de escrever um livro sobre a história da sua cidade e sua gentese tornou imperativo. Bastaria relatar a história da sua família que lá estavaa origem do município. O livro foi planejado há décadas, por Nevinha que, infelizmente, não pode executá-lo. Coube à Dionée cumprir a missão e presentear a Paraíba com uma obra rica em fatos históricos que marcaram a cidade e do Estado.

 

A Paraíba, ao que parece, povoava os sonhos de alguns poetas brasileiros. Também Mário Quintana me revelou em meados dos anos 80 que tinha uma vontade enorme de conhecer a Paraíba e que quase veio para cá na Revolução de 30, como soldado brasileiro. Nevinha, já falecida, Dionée e muitas outras pessoas fazem parte de um segmento raro e muito representativo na formação do povo paraibano. Dionée não se apresenta como escritora ou historiadora. No entanto, pelo fato de ser uma leitora voraz construiu uma obra necessária para compreendermos a formação do povo paraibano. Uma obra escrita com maestria, com imensa carga de significado para entendermos, por exemplo, o que mudou nos hábitos culturais do Estado.

 

Tendo crescido num contexto intelectual, político e histórico de muita relevância, Dionée traz na memória uma extensão de fatos que certamente poderiam render outro livro ou uma obra mais extensa. Os fatos que cercam a relação de amizade que o grande poeta brasileiro mantinha com a Paraíba através de Nevinha, não constam no livro de Dionée. Mas, não seriam poucos fatos que acabariam criando uma história à parte dentro de uma história tão bem contada. Felizmente a editora da UEPB descobriu essa história e antes de qualquer outra editora, se adiantou e já trabalha na edição do livro que publicará essa correspondência que Nevinha mantinha com os escritores.

 

Não apenas as cartas serão publicadas. Também as anotações de Nevinha sobre os vários telefonemas que recebeu de Drummond. Todos eles guardados por quem sabia a dimensão histórica daquele momento. Numa relação muito pessoal e carinhosa, Drummond contava para Nevinhaaté mesmo as suas tristezas, revelava quando se sentia adoentado, falava de questões pessoais e familiares com grande confiança. Um fato que esteve escondido por décadas e que começa a ser revelado a partir dos relatos ricos em detalhes que ainda estão na memória de Dionée. Uma mulher que generosamente reparte seus guardados. Uma história como tantas que ficam perdidas diante da enxurrada de banalidades que entram pelos nossos olhos e ouvidos permanentemente.

 

A imensidão do afeto conduz a memória de Serra Redonda. Nevinha não viu seu sonho realizado em vida. O sonho de escrever a história da sua cidade. Mas Dionée cumpriu esse sonho no tempo em que completou noventa anos de idade. São histórias que acumulam sensibilidades e transbordam. Seja porNevinha, na sua relação com ícones da Literatura. Seja por essa sensibilidade que transgride o tempo na suave existência da escritora Dionée. Um ser humano pleno, com sua jovialidade e delicadeza. Ou mesmo pela sensibilidade da direção da UEPB que descobriu esta pedra preciosa e deverá transformá-la em realidade para enriquecer ainda mais a história intelectual de um povo de tantas glórias ainda ocultas.  Aos poucos vamos tomando conhecimento e espalhando essas verdadeiras preciosidades que engrandecem ainda mais a Paraíba.

 

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