Contra a crise, façamos democracia

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Aprendi desde quando eu era criança pequena lá em Barbacena que é possível combater fogo com fogo. Fiquei positivamente perplexo ao saber que a vacina era a inoculação preventiva da doença em nosso corpo para evitar que a própria doença contida naquela dose cientificamente controlada nos debilitasse ou destruísse.

Da mesma forma, exercitando esse princípio, o da similaridade, princípio da pregnância  da forma, uma inegável gestalt da pura complementariedade, podemos inferir que os problemas da democracia serão resolvidos com mais democracia. Democracia como vacina contra a asfixia resultante de qualquer forma não democrática de poder.

Apelar ao militarismo enquanto solução para a crise política, como saída da armadilha histórica que é a corrupção, como suporte institucional para contemplar a expectativa geral de superação do país da perda geral de credibilidade e de representatividade dos poderes constituídos, me parece uma atitude equivocada.

Equivale saltar da frigideira para o fogo esse clamor que se eleva entre cidadãos de todos os recortes sociais pela volta dos militares ao poder no Brasil, uma referência ao golpe militar de 1964 que resultou numa ditadura e fez a sociedade retroceder perante a pauta da modernidade que inclui república e democracia como formas e processos melhor adequados à formulação e encaminhamentos constitucionalizados em prol da harmonização dá vida em comum.

O apelo ao militarismo como recurso contra a crise é uma demanda fadada ao fracasso no que respeita à manutenção de conquistas históricas inauguradas com as revoluções norte-americana e francesa, e confirmadas pelos momentos em que os povos fizeram as grandes guerras no século 20 contra o imperialismo e contra o unipartidarismo totalitário.

Nesse espectro, o nazismo foi o zumbi mais temido, detestado e combatido pela consciência democrática mundial. O partido único do comunismo autoritário praticado pela extinta União Soviética dos gulags (glavnoye upravleniye ispravitelno-trudovykh lagerey i kolonij, que em português a gente traduz por administração geral dos campos de trabalho correcional e colônias) também deu sua contribuição à náusea que empestou o mundo a partir do momento da “Denúncia Kruschev”, em 1956. Ambas as estruturas sociais amplamente militarizadas.

Importante destacar que uma das razões do prestígio do militarismo que leva os brasileiros ao clamor pelo retrocesso e que na Alemanha e na União Soviética atingiu o negativo grau da opressão radicalizada a qualquer dissidência, dissidência geralmente confinada em campos de concentração, foi a vitória das forças aliadas na Segunda Guerra.

O resultado da campanha contra a ameaça nazista empolgou o mundo ocidental e elevou o prestígio dos militares, das forças armadas.

No caso brasileiro, elites militares se estruturaram contra o autoritarismo representado pelo coronelismo, um tipo de mandonismo que ganhou combate enquanto forma de controle social ainda nos anos 1920, resistência que atingiu a culminância com o rompimento das estruturas da Velha República provocado pela Revolução de 30.

Essa elite se transformou num aríete do golpismo e tanto forçou a barra desde a reconstitucionalização de 1945 que terminou por dominar a sociedade brasileira através de uma ditadura que fechou o Congresso, censurou a imprensa, torturou e matou muita gente.

Parte da sociedade se rebelou, se armou, foi às ruas, se mobilizou e organizou e conquistou a revogação da ditadura.

Hoje, há incautos que diante da crise institucional e econômica que nos atinge defendem a volta dos militares como se o militarismo nessa hora fosse uma ideologia capaz de nos prover com a coesão social de que tanto precisamos.

Mas apelar ao militarismo é buscar o recurso às armas como substituto à saudável bagunça dialogal que é a democracia com sua gritaria por hegemonia política dos grupos livres em atrito por mais direitos. É apelar para a coerção simbólica e concreta. É reconhecer no dispositivo da violência legal o suporte contra a divergência ideológica como instância preferencial.

A sociedade militarizada tem uma incompatibilidade com a ideia de igualdade. A hierarquia substitui a crítica transformadora, é inibidora da contestação que legitima a possibilidade de superação de problemas.

O conservadorismo extremo é a marca do militarismo que vê no horizonte da autoridade que representa um absolutismo.  Reafirmo o que já declarei neste mesmo espaço: não acredito que a democracia seja mera superstição da estatística. Nem vejo no militarismo a proteção à democracia de que tanta gente fala.   Contra a crise, façamos democracia.

Reproduzido do jornal A União, edição de 15 de janeiro de 2017.

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