O discurso da ética como princípio da promoção da honestidade funcionou durante período recente da vida política brasileira como mantra libertador. Foi trombeta de alerta para boas práticas na construção de um mundo de inclusão social, igualdade e promoção do estado democrático de direito. Nunca tantos foram tão felizes sob o céu estrelado da certeza de mudança de parâmetros morais na prática (o fazer) e na práxis (o fazer planejado) política.

O discurso da ética alimentava corações e mentes com nutrientes de uma sopa partidária temperada com folhas compensatórias, cubos proteicos de ações afirmativas, pitadas ideológicas de verdades vermelhas e ações solidárias a gosto. Era no que se acreditava.

A sopa, no entanto, fermentou ao nível tóxico da corrupção com os sacolejos da cobiça transportada num land rover. O veículo que antecipou o apocalipse das carreatas da propina terminou enferrujado num lava jato. O resultado das trepidações na via esburacada da traição do eleitorado faminto de ética foi um caldo ácido bastante corrosivo.

O veneno engasgou a geração de testemunhas perplexas de um dos maiores fracassos da gastronomia ética no grande fast food fome zero do Brasil tropical. Muita gente ainda tosse e se contorce de indigestão. Quem não morreu engasgado, cuspiu o veneno e continua firme à espera da ética.

Mas ética não cresce em árvores por aí. A fome continua. Que falta ela faz quando poderia muito bem alimentar os caminhantes que ocupam as casamatas da indignação entre greves, ministérios incendiados e a surpresa das delações premiadas.

Para confirmar o quadro de carência, faltou ética na mesa do presidente do TSE Gilmar Mendes. Ele tinha tudo para produzir um ato ético no julgamento do presidente da República. Contra (a chapa Dilma-) Temer, a Polícia Federal e o Ministério Público jogaram provas de que se trata, no caso dele, de alguém impossibilitado de exercer o mandato que arrebatou com um cangapé mafioso das mãos de sua parceira de quem foi vice.

Gilmar preferiu votar a favor da corrupção e contra a ética. Preferiu cometer ato indigno, aét(c)ico fez um aceno podre de escárnio à nação aflita, um gesto desprezível em defesa de causa mais desprezível ainda: garantir, sob a justificativa de preservar a estabilidade institucional do país, a manutenção no poder de um grupo que esgotou as possibilidades de manter a governabilidade, a normalidade republicana de uma democracia constitucional.

O presidente do TSE fugiu da responsabilidade do indivíduo perante a verdade dos fatos, fulminou a estabilidade do contexto histórico ao privilegiar a fraude, fugiu ao cumprimento do dever de julgar em conformidade com as provas, agrediu o princípio da legalidade ao recusar-se a reconhecer jurisprudência do STF que recomenda posicionamento contrário ao que tomou, professou a burla e consagrou a impunidade.

Há um pensador que nunca sai da moda no Brasil: Mikhail Bakhtin é o nome da fera. Esse filósofo russo da linguagem teorizou nos anos 1920 do século passado o ato ético ou responsável. Para ele, a centralidade do agir humano no mundo concreto para as interações que fazem a vida evoluir no sentido do bem é representado por esse ato, o ético, que expressaria o pensamento participativo que fundamenta nossa identidade.

Essa identidade dialógica habitaria o mundo de uma filosofia não-transcendental. Em Kant, a lei moral como ética é transcendental no sentido de que é puramente racional e formal, que não diz respeito a um conteúdo específico, mas sim a uma universalidade apriorística, que não depende de qualquer vivência, de qualquer experiência.

Para Bakhtin, o ato ético é não-transcendental por estar ancorado na experiência, no acontecimento, na vivência, e é relativo, como em Kant, ao sujeito, à subjetividade, à subjetivação, mas ao contrário do que ocorre na teria kantiana, onde o começo da ética está na autoconsciência, começa com o sujeito o dever ético, para o filósofo russo a experiência válida do ato é deflagrada a partir do postulado “eu também sou”.

No trinômio “eu-para-mim”, “outro-para-mim”, “eu -para-outro”, Bakhtin condiciona a responsabilidade relacional que constitui o fluxo do dever moral, da consciência ética, e da substância dos valores na coletividade em sua dinâmica social.

O gesto ético protetor da coletividade passou longe na gesticulação pró-Temer do presidente do TSE, e contribuiu para agravar o quadro de desidratação moral produzido pelos corruptos no poder. Foi triste. O Brasil não merecia esse vexame.

Reproduzido de o jornal A União, edição de 14 de junho de 2017

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