Há intenso vazamento de beleza em cada quadro, plano, sequência de “Como nossos pais”, o premiado filme de Laís Bodansky em cartaz nos cinemas da cidade. Mas isso não impede que a cineasta de “Bicho de sete cabeças”  realize com êxito um thriller psicológico cheio de tensão, com situações de alto impacto emotivo; de suspense, em que os personagens são lançados, juntamente com o público, em armadilhas do cotidiano sempre repleto de desafios; e de excitação provocada por uma história, como toda história comum, cheia do incomum que caracteriza o evoluir da vida e seus movimentos: ora dilacerantes devido à força e o peso das perdas, ora apaziguador quando de achados e encontros que transcendem o esperado.

Ao mesmo tempo, o filme funciona muito bem como drama intimista. As observações sobre a intimidade dos elementos da história se parecem com depoimentos pessoais devido à verossimilhança do conjunto narrativo sob o olhar ora crítico com alguma aspereza, ora generoso e até condescendente, mas sempre muito próximo e carregado de afetividade da diretora.

Projeta também características de uma crônica reflexiva de cunho existencialista da cotidianidade. Atrevimentos e recuos, dúvidas e estranhamentos, abandonos, desejos deslocados e sutilezas do trato dos pequenos segredos da personalidade em expansão no tempo e no espaço das jornadas cotidianas nos centros urbanos são manejados com astúcia, emotividade e equilíbrio pela autora

São vários os elementos literários que me ocorrem diante dessa narrativa de alta densidade cinematográfica, mas que é também literária devido tanto ao empuxo, quanto ao impulso e também à atração gravitacional dos efeitos psicológicos arquetípicos do roteiro atento a situações emblemáticas da vida. Situações certeiras quanto à natureza das personalidades das personagens insculpidas por Bodansky ao longo da narrativa são encontráveis tanto nos grandes romances clássicos quanto em obras importantes da atualidade.

Os vórtices magnéticos da cotidianidade, a exemplo dos reconhecimentos da alteridade, como percebemos o outro na composição das percepções gerais, o agir-pensar que nos leva a decidir, que interfere em nossas ações e decisões são encontráveis em romances como “Mrs. Dalloway”, de Virginia Woolf,  “O grande irmão”, de Lionel Shriver, e “Fim”, de Fernanda Torres.

Quanto aos embates psicossociais envolvendo instituições como casamento, família, diálogo pai-mães-filha-filho-genro-nora-sogra, embates geracionais, tensões afetivas e posicionamentos sociais temos um arco referencial que vai das obras de Dostoiévski e de Nélson Rodrigues, às contemporâneas de Cristóvão Tezza, Maria Valéria Resende e Marília Carneiro Arnaud, isso num só punhado extraído circunstancialmente da memória.

Quanto à atitude estética da autora, que integra um elenco especial de cineastas brasileiras que inclui, entre outros, nomes significativos a exemplo de Suzana Amaral, Tata Amaral, Daniela Thomas, Monique Gardenberg, Lúcia Murat, Kátia Lund e Carla Camurati, há uma sutil progressão geométrica na gramática dos enquadramentos.

A sintaxe da montagem compatibiliza observações frontais de ambientes e pessoas que atuam enquanto explanações objetivas, diretas, para dizer dos enfrentamentos abertos na arena dos desafios que a impessoalidade das situações propicia, com observações de uma câmera inteligente, no filme “pensando” e “decidindo” em ângulos de 45 graus, e os consequentes deslocamentos possíveis nessa ambiência específica para a percepção de subtextos da narrativa, ângulos que sinalizam para a simbologia da subjetividade do ser atingido pelas várias maneiras oblíquas com que muitas coisas chegam até ele.

Há uma leve levada construtivista harmonizando a poética de um filme de múltiplos subtextos, entre os quais a agenda pesada da contemporaneidade com seus novos arranjos socioculturais para a definição do que sejam identidades, gêneros, subjetividades.

O filme pode ser interpretado como narrativa feminista. Mas isso numa lógica em que tudo o que diz respeito às buscas da mulher por espaço de liderança pode ser entendido como feminismo. Opino no entanto, que a discussão em “Como nossos pais” está além do feminismo no sentido de que a obra discute a própria constituição do self feminino enquanto posse de si mesmo pela pessoa que é única apesar de ser igual aos outros, de ser a mesma em mutação causada pelo contato com outras pessoas, e de como a mudança confirma a própria identidade, self-consciência em meio à fragmentação da personalidade típica da pós-modernidade atomística. Outro aspecto a destacar na obra de uma diretora afeita a temas transgressivos é a própria ética da transgressão no sentido de que no filme se trata de uma atitude relacionada a violações (de modos de ser e pensar estabelecidos), revelações (de possibilidades de ação e pensamentos) e abolições (de atitudes, conceitos e preconceitos). Um filme à altura da qualidade do cinema brasileiro pós-retomada, e do cinema enquanto força expressiva da cultura que nos acolhe. Uma obra para iluminar os labirintos do tempo.

Reproduzido de o Jornal A União, edição de 05 de setembro de 2017

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