Jaldes analisa campanhas presidenciáveis sem Eduardo Campos

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    O professor e cientista político Jaldes Meneses, faz uma leitura fundamentada sobre a sucessão presidencial agora sem Eduardo Campos e aponta que Marina Silva tende superar Aécio Neves e disputar o segundo turno das eleições com Dilma Rousseff.  Jaldes também avalia que a campanha eleitoral ‘emocionalizou-se’ com a perda trágica de Campos. Eduardo foi morto em um acidente aérea na última quarta-feira (14). Confira a entrevista ao Paraíba Já.

    Como o senhor analisa o quadro das candidaturas à presidência da República após a morte de Eduardo Campos?

    Considero que o processo das eleições presidenciais de 2014 divide-se em duas partes: antes e depois da morte de Eduardo Campos. Todas as estratégias anteriores falecerem junto com a tragédia de sua morte. Até as exéquias de Eduardo, em Recife, em um grande ato de comoção social, o tema da sucessão ainda estará em banho maria, conquanto as articulações fervam nos bastidores. Creio que, ao final das contas, embora existam tensões em sentido contrário – vindas de interesses do PT e PSDB –, o PSB vai se definir pelo apoio à candidatura de Marina Silva. A família de Eduardo Campos, na expressiva e contundente (até para o momento da hora) carta à imprensa de seu irmão, Antonio Campos, e mesmo sinais da própria mulher, Renata, indicam que a família Campos já fechou com Marina.

    Há motivos da desconfiança de setores do PSB em relação a Marina. Afinal de contas, ela é de o outro partido, a REDE, não do PSB, partido ao qual ela se filiou para passar uma chuva, depois do indeferimento do registro de seu partido pelo TSE. No entanto, penso que as três alternativas existentes, lançar um candidato puro sangue inexpressivo, se bandear para os lados de Dilma ou Aécio, ou ficar sem candidatura à presidente, abriria uma crise de identidade no PSB, pois o centro do discurso de Eduardo era apresentar uma alternativa viável eleitoralmente à polarização PT-PSDB, marca de todas as eleições presidenciais desde 1994.

    O senhor acredita que, se Marina Silva for confirmada candidata substituta ela teria chances de superar Aécio Neves e ir para o segundo turno com Dilma?

    Sim. Foi exatamente a candidatura de Marina, que amealhou 19 milhões de votos em 2010, que provocou o segundo turno nas eleições de 2010. Se somarmos o fator inegável de recall impregnado na candidatura de Marina (que Eduardo não possuía), o impacto da morte de Eduardo junto aos eleitores, que terá repercussão eleitoral, embora, no horizonte de hoje, seja difícil aquilatar o alcance do impacto. A morte de Eduardo Campos significou um desses acontecimentos traumáticos no qual todas as pessoas se recordam onde estava, em casa ou no trabalho, ao saber da notícia, um pouco como a morte de Kennedy, o suicídio de Getúlio Vargas.

    A campanha eleitoral “emocionalizou-se”, por assim dizer. Emoção é o campo por excelência de Marina Silva, um terreno no qual tanto Aécio como Dilma são sofríveis.

    É verdade que Eduardo Campos apenas começava a ser conhecido do eleitorado brasileiro, estava debutando nesta eleição, não trazia obra feita nem imagem formada, para o bem e o mal, feito Getúlio Vargas. No entanto, se Getúlio se tornou mito pelo conjunto da obra de demiurgo da modernidade brasileira, por outro lado, a mitologia que deve se agregar em torno da imagem de Eduardo advirá mais do futuro que não foi. Uma mitologia conjugada no tempo verbal do pretérito do futuro. Desde os tempos de Dom Sebastião, um “jovem promissor” morto em campo de batalha na África e terminou por significar no imaginário popular a decadência do império português, a força mitológica do futuro do pretérito é extraordinária. Evidentemente, ressalvadas as proporções, a figura de Eduardo não terá a dimensão mitológica de um Dom Sebastião, mas inscreve-se na mesma tipologia de fenômenos.

    Perde o país e o Nordeste um grande político, não?

    A sua pergunta vale outra entrevista. Deixem-me fazer um pequeno excurso histórico, comparando neto e avô, Eduardo Campos e Miguel Arraes. Afora a genética, existe uma afinidade de longo prazo entre algumas práticas de concertação de alianças políticas entre Miguel Arraes e o neto, Eduardo Campos, que no seu sentido mais profundo diz respeito à estruturação das classes sociais em Pernambuco e no Nordeste. Certamente o neto aprendeu muito com o avô. Talvez isso ajude a explicar por que tanto o velho Arraes, no passado, como Eduardo Campos, no presente, no sentido de que, sempre alinhados politicamente e programaticamente à esquerda, nunca circunscreveram, de caso pensado, simplesmente a este espectro o sistema de alianças.
    Miguel Arraes e a Frente Popular de Pernambuco subiram no palanque de seu contraparente usineiro Cid Sampaio nas eleições de governador em 1958. Foi secretário de Cid no primeiro ano de mandato, quando saiu do governo para seu eleito prefeito do Recife numa bela campanha de massas, recebendo a contrapartida do apoio do governador. Em seguida, diante da radicalização política, nas eleições de 1962, Cid retirou o apoio à Frente Popular e apoio do adversário derrotado de Arraes, João Cleofas.
    Estaria Miguel Arraes no começo da construção do mito em que se tornou praticando a conciliação ou a traição de classes e abdicando de um programa de reformas? De maneira alguma. É preciso compreender que as classes sociais fundamentais do capitalismo, a burguesia urbana e o proletariado fabril, estavam em processo de constituição no nordeste, em processo cujo epicentro era o Recife tantas de lutas heróicas. Por isso, o porta-voz político dos trabalhadores – a Frente Popular – não poderia ter o mesmo tipo de constituição de alianças, plenamente classista e diferenciado, que tiveram, por exemplo, as frentes populares européias, de que o exemplo paradigmático foi a Frente Popular francesa (1935-1938).
    Escreveu-se rios de tintas sobre o acordo fordista entre os trabalhadores, a burguesia e o Estado que deu origem, depois da Segunda Guerra Mundial, ao projeto de capitalismo democrático do Welfare State. Até mesmo alguns sociólogos brasileiros descobriram afinidades eletivas entre a classe operária do ABC, lastro do PT, e a constituição de um partido social-democrático à brasileira. Subindo o meridiano, se esta precisando estudar melhor o primeiro esboço de um compromisso de classe em Pernambuco, que foi o famoso “Acordo do Campo” (1963), o primeiro feito no país entre trabalhadores rurais e usineiros, arbitrado pelo governador Arraes, elevando os salários e melhorando as condições Zona da Mata. A seu modo periférico, estava-se formulando um tipo de regulação o, senão fordista, ao menos em direção ao capitalismo pleno, no qual os direitos de cidadania estão parte constitutiva.
    Tornou-se clássica a explicação para o golpe civil-militar de 1964 a tese de que aliança populista começou a se esfacelar no nordeste, pois não havia espaço para a reforma agrária e a extensão dos direitos sociais recém-conquistados (ou outorgados) pelos trabalhadores urbanos a seus congêneres do campo. Neste sentido, o “Acordo do Campo” em Pernambuco estava à frente de seu tempo.
    Não deixa de ser simbólico o sortilégio de que exatamente um neto de Arraes, anos mais tarde, em outro Brasil, novamente esteja conduzindo um processo de aceleração da modernização em Pernambuco, de que a construção de uma montadora de automóveis – a Fiat – é um dos principais emblemas. Resta saber se o sistema de alianças ao centro do espectro político, intentado por Eduardo até morrer, mantém-se organicamente atual em termos uma política progressista para o nordeste. O PSB e o PT acham que sim; os partidos situados à esquerda do PT, embora sejam frágeis intelectualmente em pensar o nordeste, intituivamente (intuição pode ser o começo de boa teoria), acham que não.

     

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