O projeto de criação de metaesquemas interpretativos do Ulysses para divulgar sempre no bloomsday (16 de junho) me ocorreu durante uma caminhada com Jória por Wall Street, no início da década passada. De repente, estávamos em frente a um pub que tinha o nome de James Joyce.

Se você curte a literatura, a estilística, o poder de invenção e os brotos imaginativos de Joyce, pesquisa sua mitologia pessoal, se identifica com a mística de seus personagens, e contempla com persistência, paciência e serenidade a galáxia do texto seminal que resulta em Ulysses, há de compreender que esse achado foi uma agradável surpresa.

A partir daquele ambiente irlandês inoculado na expressividade cosmopolita que Nova York ostenta como sua face mais agradável (em nossas caminhadas identifiquei nas bancas de jornal da cidade publicações em mais de 30 línguas), refleti sobre o circuito literário da cidade e como seria oportuno conversar a respeito do romance do século XX, durante o meu planejado encontro, com Paul Auster.

Não consegui realizar meu intento, entre outros tantos compromissos programados, devido a um ataque terrorista que derreteu a agenda de todo mundo na cidade, melhor dizendo, do mundo inteiro em todas as cidades.

O meu plano secreto em relação a Auster era simples. Procurar, no endereço 55 Fifth Avenue 10003, a agente literária Carol Mann e convencê-la de que leitoras e leitores de Paul Auster na Paraíba gostariam de saber o que ele pensa sobre a agenda da pós-modernidade. Mas essa é uma história que ainda não teve fim…

Também sobre meu relacionamento de fã e ativista tímido do bloomsday sempre houve um marco limítrofe para que eu exibisse publicamente meu entusiasmo com a mobilização que se espalha por várias cidades do mundo a cada 16 de junho, aqui mesmo em João Pessoa, em 2012, o artista plástico e romancista José Rufino comandou uma alusão performática à passagem do dia, e essa fronteira é a coincidência com o aniversário do romancista, dramaturgo e poeta Ariano Suassuna.

Sempre que eu pensava em digitar, quase eu escrevia agora sob o olhar da obra desses gigantes literários, datilografar, alguma coisa sobre a data, me surgia a imagem de Ariano rindo dos que cultuam estrangeirismos…Mas não tem como não pensar na convergência do livro tão destruidor como inovador de Joyce com o Romance D’a Pedro do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai e Volta.

São livros que encaram o que se convencionou chamar de contestação das impossibilidades. Neles, bastaria indicar o resgate da memória como matéria fundadora de novas realidades linguísticas e consequentes correlatos psicossociais, estéticos e das sensibilidades gerais, para ficarmos no mesmo território das impossibilidades vencidas para a invenção artística. Na mesma linha vai o Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, Guerra e Paz, Tolstói, Os Cânticos, de Pound, e entre outras, obras monumentais como as de Lobo Antunes, Raduan Nassar e Osman Lins.

Mas, neste 16, Ariano completaria 90 anos se ainda estivesse materialmente entre nós. A referência ao seu aniversário neste bloomsday é uma homenagem à grandeza da literatura como uma das máximas expressões da sensibilidade da espécie.

A propósito de Ariano, Joyce e as sensibilidades, seria interessante pensar no que diriam os dois escritores sobre a trajetória da letra Y quanto às estruturas semântica, morfológica, pragmática, fonética, gramatical das línguas ocidentais, as suas estruturas sintáticas, a densidade comunicativa, as pontes psicológicas entre os nexos da fala, língua e as linguagens, as vinculações com a música e a musicalidade das palavras, a partir de sua insurgência, insurgência do Y, nos códigos de significação que os sistemas escritos embutem, desde o alfabeto fenício.

A referência à letra, que teve o uso no Brasil e em Portugal extinto no formulário ortográfico de 1943, restaurado no acordo de 1990 que entrou em vigor em 2009 e em vigência unificada para o mundo lusófono em 2016, decorre das polêmicas dos tradutores quanto ao uso do Y na tradução. No Brasil, Antônio Houaiss decidiu por Ulisses, com “i”, em sua tradução. Já Caetano Galindo preferiu manter Ulysses, a forma original, certamente por vinculação à publicidade histórica que o Y ganhou a partir de sua incorporação ao grego e posteriormente ao latim com a invasão romana à Grécia.

 

Escrever Aryano, assim com Y, modifica em que as projeções do nome do mestre na obra do edifício armorial com suas ambições mitográficas? E gravar Ulisses, assim com “i”, em que se expande a compreensibilidade de todo o Homero ressignificado pela faca escultórica de Joyce? Bem, são perguntas a serem respondidas no metaesquema no bloomsday do próximo ano. Ou não. Até lá…

Reproduzido do blog PontoG.

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