Aplauso para Whatsapp é resposta positiva para um novo tempo institucional

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Recentemente, ao participar de reunião para recrutar especialistas em tecnologias da informação e da comunicação, me flagrei comentando ironicamente o fato de um dos candidatos ter indicado entre os pontos fortes do currículo a experiência como administrador de 30 grupos de Whatsapp.

Dias depois, ao acessar um relatório da universidade Harvard sobre profissões do futuro, estava lá na prateleira das mais promissoras justamente a de gestor ou gestora de grupos e redes sociais.

Naquela hora, refleti sobre o quanto a minha percepção sobre a dinâmica evolucionária do mundo do trabalho, dinâmica em plena ressignificação paradigmática, estava congelada ainda na fronteira inovadora do século 20.

Refiro-me à economia do quaternário com jornadas diferenciadas do trabalho remoto, das unidades produtivas robotizadas, das estações tecnológicas inteligentes que se autocorrigem em rede, e das equipes multidisciplinares em plataformas desterritorializadas, aquela história do callcenter que atende ao consumidor indiano que está localizado no interior do Nordeste.

Essas reflexões me ocorreram ao identificar a mesma atitude irônica nas declarações da imprensa estadual diante de um voto de aplauso proposto na semana passada por vereadora de Bayeux a um grupo de Whatsapp daquela cidade paraibana.

Opino que aqueles de nós que depreciaram o voto merecem ser perdoados por não saberem o que dizem. Em verdade, é preciso reconhecer a justeza do gesto de saudação à positividade de uma estrutura que presta serviços realmente relevantes.

Pouquíssimos estratos sociais onde a tecnologia da Internet está presente hoje em dia não dispõem de grupos para interação. Pouquíssimos também são aqueles que não usam esses aplicativos de comunicação ativados via telefonia móvel como ferramenta utilíssima ao trabalho, em qualquer área.

Numa perspectiva, a da pesquisa sociológica que estuda a organização para a administração, via teoria da institucionalização, temos que admitir que os grupos hoje são verdadeiras instituições. Para a antropologia clássica, e também para a sociologia, instituição é uma forma social específica a exemplo de um grupo de ação como o Médicos sem Fronteiras.

Há autores que afirmam que instituição é uma forma social estabelecida com solidez, o que quer dizer historicidade, participação intensa, parâmetros sociais e econômicos, fluxo de informação ordenado, convergência identitária… Tudo o que um grupo de Whatsapp é. Estamos, portanto, em pleno século 21, o século da Internet das coisas, das impressoras tridimensionais, do desemprego estrutural e do trabalho on demand sem salário, das lojas de produtos em que nada se paga, da economia do carbono e da telemedicina na nuvem, entre outras novidades.

Essa é a conjuntura da cibercultura, e a análise dos grupos, em outra perspectiva, a da ecologia cognitiva, nos leva a discutir aspectos dessa nova dimensão das interações sociais que os aplicativos para troca de mensagens propiciam.

A nova dimensão das interações sociais requer a percepção de novas fronteiras entre o público e o privado, novas configurações de espaços sociais para trocas simbólicas também inéditas e imersão total na cultura da interface.

A cultura da interface tornou mais aguda a prática cultural da digitação, redefiniu o eixo de leitura, redimensionou os parâmetros de visibilidade e de liberdade reservados à pessoa e aos grupos, pratica uma espécie de moto contínuo interacional e define e expande também de forma permanente um novo contexto de territorialidade.

É nesse contexto onde florescem os novos territórios cognitivos com seus campos, vales, montanhas, lagos e oceanos de significações, entre as quais está a legitimidade do novo grupo social, o formado pelo aplicativo Whatsapp, merecedor de toda e qualquer distinção destinada aos grupos e aos indivíduos vivendo em sociedade. Seja no modo presencial, virtual ou remoto.

A crítica à vereadora, em certo sentido, é a mesma que se lançou contra aquele indivíduo do mito da caverna de Platão. Ele saiu, viu o mundo como era, e ao retornar e dar seu testemunho de que o mundo não era só feito de sombras, e que havia lá fora o céu e o Sol, cores e ares diferentes, foi considerado louco. Talvez o Whatsapp seja coisa de louco. Mas aplaudir suas funcionalidades é reconhecer a importância das formas de viver e ser da nova sociedade que estamos construindo. Sociedade que nos constrói permanentemente.

Reprodução de jornal A União, edição 02 de abril de 2017.

 

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