Apesar de 12 longas e estreia na TV, Zezita Matos defende que sua vida é o teatro

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Zezita Matos começou a se destacar no cinema já na maturidade. Ela participou, no entanto, em 1965, da histórica adaptação de Menino de Engenho, filme dirigido por Walter Lima Junior, baseado no livro clássico do escritor paraibano José Lins do Rêgo. Ela complementa essa informação com uma conclusão sobre a própria trajetória artística. “De fato a minha história é o Teatro. Em 1958 eu comecei e não pare até hoje”, destaca.

Em 1999, 34 anos depois das filmagens de Menino de Engenho, o cineasta paraibano Marcus Vilar convidou Zezita para fazer uma das protagonistas do seu curta-metragem de ficção A Canga. “A Canga detonou!”, ela diz, resumindo o sucesso de crítica do filme, que é um dos marcos do novo cinema na Paraíba. “Eu, depois da Canga, fiz 12 longas e oito curtas”, ressaltou ela sobre o impacto que esse trabalho teve na sua carreira.

Ela diz que teve sorte nos projetos em que participou no cinema. “É muita coincidência, gente! Os 12 longas que eu fiz são todos longas que tem uma influência no cinema pernambucano, cearense, paraibano… (o trabalho no cinema) só tem contribuído para minha história como atriz no teatro, no cinema e na minha vida pessoal”, enfatiza Zezita.

A atriz veterana lembra que para fazer arte, para se inserir no universo da dramaturgia, em qualquer que seja a plataforma, é fundamental dedicação, disciplina e muito estudo.

“Cada projeto é um projeto, cada projeto requer um estudo, uma observação do cotidiano, adentrar na personagem e na história e isso a gente não faz da noite para o dia, isso a gente não faz sem estudar”, lembra ela.

O espetáculo “Memórias de um cão”, encenado em 2015 pelo Coletivo de Teatro Alfenim, do qual Zezita faz parte, é um dos exemplos dessa lógica. Com um texto baseado num romance de Machado de Assis, o elenco inteiro da peça teve de ler o livro.

“Foi um novo aprendizado, um novo olhar sobre o Machado”, revela Zezita, que é formada em Letras, ou seja, também uma educadora de formação e de profissão. “Como é bom contribuir para o teatro, para o cinema e para educação. Eu sou uma educadora atriz e uma atriz educadora”, reforça ela.

Engajada politicamente desde muito cedo, Zezita foi perseguida pela ditadura militar por, à época, pertencer a juventude comunista e fazer do teatro uma trincheira artística de luta pelas causas populares. Ela fazia o que os militares e seus apoiadores classificavam como “arte subversiva”. Escapou por um detalhe muito peculiar: seu nome de batismo.

“Consegui me safar de muitas coisas porque meu nome até 1992 era Severina de Sousa Pontes e minha mãe, ao me batizar, nunca me chamou por Severina, chamava Zezita. Só vim saber disso quando fui fazer o (exame) de admissão no Colégio As Damas, em Campina Grande, que a freira pediu o registro (de nascimento). Até então eu não sabia”, explica ela, que depois revela que incorporou Zezita ao nome oficial quando houve essa janela jurídica para os anistiados políticos – mas sem abrir mão do Severina.

“Severina me serviu lá no Liceu em 1964 quando o exército procurou Zezita e não encontrou”, complementa fazendo um relato sobre como conseguiu escapar da prisão pelo Regime Militar. “A minha história se confunde com a história da política do país”, conclui ela. Ano passado, Zezita participou e uma audiência da Comissão Estadual da Verdade da Paraíba sobre censura à imprensa e às artes durante o regime militar e deu detalhes da sua vivência nesse período.

A atriz paraibana mantém intactas as convicções políticas progressistas. Diz acreditar que um novo modelo de sociedade, com mais inclusão e justiça social, é possível e necessário e que quem deseja fazer arte também é duramente atingido pela lógica excludente do sistema econômico. “Fui e continuo sendo uma pessoa que acredita que as coisas não têm de ser assim, o mundo tem de ter vez para todo mundo. Vejo pessoas que começaram a fazer teatro comigo e que não continuaram porque não tinham condições econômicas, não tinham assistência familiar – como eu tive. Então, isso não é justo! Hoje eu ainda vejo pessoas que querem fazer teatro, que querem fazer outra coisa além de um trabalho para sobrevivência e são podadas por questões sociais, por questões econômicas”, ela alerta quase como uma denúncia.

“Todos os meus espetáculos serviram para uma discussão social e hoje estou num grupo que tem isso como meta, o Coletivo de Teatro Alfenim. A gente entende e busca fazer um teatro que não é só entretenimento. Não tenha nada contra quem faz, mas eu me acho muito mais à vontade fazendo um teatro que eu sei que ele vai além do entretenimento”, Zezita faz questão de salientar.

Para Zezita, o fazer artístico em qualquer gênero dramatúrgico, tem suas convergências, mas mantendo a singularidade. O ator é o elemento imprescindível nesse processo, que une todas as linguagens. “Teatro e cinema são coisas semelhantes, mas são duas linguagens diferentes. Agora entra a terceira: a televisão. São linguagens, mídias, mas tem as suas caraterísticas.  Mas tem o ator: é sempre o meu corpo servindo ao cinema, ao teatro e agora a televisão”, ressalta. “E cada um (dos gêneros) enriquece de maneira muito forte tanto na Zezita enquanto ser social, político como enriquece a quem assiste também, eu acredito”, conclui.

A paixão pela vida e pelo fazer artístico é o que mobiliza essa atriz paraibana que revela que o envolvimento, o estar apaixonada pela personagem, é seu principal estímulo.

“O que me instiga é fazer teatro, é muito bom! É dar aula, é muito bom! Eu gosto do que eu faço. Eu não sei fazer meus trabalhos sem estar apaixonada. Por exemplo, eu estou apaixonada agora por Piedade, vendo as falas, as coisas lindas que ela fala. Ela é uma mulher que não sabe ler, mas é de uma sabedoria incrível a personagem”, diz ela fazendo referência ao papel na próxima novela das da Globo, Velho Chico.

Quando perguntada sobre como definir a si mesma, Zezita Matos não titubeia: “A operária da Arte e, em particular, a operária do teatro. Não tem outra definição para Zezita”.

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