A angústia do mundo numa bolha de sabão

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O desafio das políticas públicas nos remete permanentemente para uma reflexão acerca das nossas práticas cotidianas. Principalmente para compreendermos, por exemplo, a necessidade das ações planejadas em rede. Despersonalizar é preciso. O isolamento é algo que nos sufoca. Por isso somos tão castigados pela distância, muitas vezes, entre o discurso e a prática. Seria utopia crer em algo que se propaga de forma infinita e impessoal? Não creio. Talvez estejamos falando de algo muito além disso. Logicamente, me refiro a uma necessária mudança de hábito do poder público e dos movimentos sociais no trato e na consolidação das políticas públicas. Tanto no que tange às relações de interesse partidário quanto nas relações de poder estabelecidas cada vez que um agrupamento se confunde um grupo. Jean Paul Sartre é muito claro ao exemplificar essas diferenças. Para ele, basta algumas pessoas esperando um ônibus na parada para conceituar agrupamento. O grupo é a possibilidade de um diálogo positivo dessas mesmas pessoas em torno de um interesse comum e coletivo.

 

Sinto-me bastante à vontade para criticar os movimentos sociais porque neles tive a minha formação e para eles voltarei antes de virar poeira de vento. Sinto-me também a vontade para exercer criticamente um cargo público pelo mesmo e bom motivo. Na verdade, a carência de quadros, tão visível na aplicação das políticas públicas, não é mais que o resultado do jogo de interesses que perpassa a relação dos entes envolvidos neste cenário pouco animado – mas, ainda bem, não de um todo desanimador. Se a falta de quadros nos movimentos sociais é bastante visível por termos praticamente os mesmos “melhores quadros” de trinta anos atrás, também é verdade que no olho do furacão existe uma imensa guerra de vaidades que sufoca as possibilidades de surgimento de novos quadros. Na verdade, não me refiro somente à formação técnica. Mas, também e principalmente,  à formação humana. Isso tudo se reflete nas mazelas da administração pública, onde a profissionalização e a humanização, na mesma equação, ainda é um tabu a ser superado. Afinal, a luta pelo poder e, principalmente, pela partilha do poder, não se dá apenas no âmbito partidário. Cada fatia da sociedade é palmilhada pelas disputas.

 

No exercício das políticas públicas, mais propriamente na administração pública exercida nos três níveis (municipal, estadual e federal), confesso que houve um inegável avanço (com ampla contribuição dos movimentos, reconheçamos) em termos de amparos legais e de vontade política. Mesmo que tenha estancado nos últimos anos com programas risíveis tipo “Criança Feliz”. É inegável que a partir do governo Lula, com todos os erros que possam ter sido cometidos, os avanços foram imensos. No entanto, a consolidação das práticas cotidianas ainda padece de uma radical mudança de cultura administrativa. O parasitismo eleitoral ainda é uma sombra rondando os cargos comissionados em todos os níveis e desníveis. Afinal, foi a ausência do poder público que permitiu e permite, por exemplo, que o tráfico ocupe o lugar que ocupa nas periferias do mundo. Muito especialmente deste nosso sofrido mundo latino. Esse mundo que late aqui em João Pessoa e morde no Mutirão, por exemplo, em Guarabira. Pelo visto, não estamos ainda perto de uma saída porque sempre que há uma luz no fim do túnel, parece, vem uma locomotiva e reduz as possibilidades. Dominar os freios e a aceleração da locomotiva é o nosso desafio cotidiano.

 

Não pretendo com isso semear a desesperança. Muito pelo contrário. Apenas desejo lembrar que a esperança que acredito é aquela preconizada por David Cooper: “Não existe esperança. Existe uma luta. Esta é a nossa esperança.” A minha esperança vai sempre ao encontro dos que lutam contra a impunidade que ainda coloca em xeque os interesses que se escondem por debaixo das togas e dos gabinetes de administração do Produto Interno Bruto, seja na área pública ou privada. Minha esperança segue em busca dos que ressurgem todo dia do topo de uma indignação que nada mais é que o mais profundo alicerce da cidadania. Uma cidadania, algumas vezes, acometida de lágrimas lúcidas. Sabendo que o cumprimento das leis está submetido aos interesses poderosos. Os interesses políticos estão submetidos ao interesse econômico. Nos governos, estão bons e maus executores.  Mas, reconheçamos que o poder não mudou de lugar nos últimos quinhentos anos de história brasileira.

 

Para seguir em frente é necessário beber com gosto o caldo de batatas das nossas incapacidades. Refletir sobre a desesperança dos que não vislumbram sequer a luz da locomotiva ilusionista. Mas, sabem que é preciso seguir em frente. Endurecendo sem perder a ternura jamais. Desacomodando os acomodados. Dignificando os indignados. Tudo dentro dos limites sempre esgotados da paciência coletiva. Pensando que cada um e cada uma de nós, respira o mesmo ar rarefeito das mesmas injustiças que sofrem aqueles que não pediram para nascer e muito menos para estar expondo suas inocências nas rotas mais violentas da sociedade contemporânea. Olho em todas as direções e sinto que nem tudo está perdido. Também é verdade que temos um longo caminho. Porque felicidade só vale quando repartida. Já estamos cheios das alegrias efêmeras e das espetacularizações da dor. É como se nossas angústias de mudar nossas pátrias comuns estivessem cercadas pela delicadeza de uma bolha de sabão perdida em valores visíveis e invisíveis. O jeito é seguir em frente. Manter a firmeza dos princípios para colher certezas no infinito.

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