Anayde Beiriz: mulher moderna numa Paraíba antiga

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Aureni Maria da Silva.

Mestre em História Contemporânea – Universidade Nova de Lisboa

 Neste artigo apresento as questões de gênero e os textos literários com práticas emancipatória da professora e escritora, Anayde Beiriz, que contribuíram para a historiografia da educação da Paraíba e do feminismo do Brasil. O estudo baseia-se nos caminhos da emancipação feminina e práticas feministas na Paraíba, entre os anos de 1905 a 1930. O objetivo desse artigo é de historicizar as diversificadas práticas e manifestações culturais da professora e escritora Anayde Beiriz, que contribuíram para a historiografia literária paraibana, por meio da história de vida. Só a partir de 1980 queAnayde Beiriz, teve uma maior presença na mídia nacional e na cidade de João Pessoa, com a publicação de livros, documentários, filme, peça de teatro apresentada no Brasil e na Europa, artigos, seminários, dissertações e teses como também nome de condomínio, rua, praça, escola municipal, museu e caricatura em calçada.

Um dos caminhos utilizado por Anayde Beiriz na luta que abraçou foi o uso da comunicação, por meio da imprensa escrita, aproveitando o espaço para redigir matérias sobre a conjuntura social em que se encontravam as mulheres, as questões política e cultural da época. Discretamente, vai conseguindo consolidar-se num espaço público, eminentemente masculino, com publicação de artigos condizentes com o espírito emancipatório das mulheres.

Uma das preocupações de Anayde era de combater as formas de discriminação e opressão em que viveram as mulheres desse contexto. Nessa época, iniciavam-se as lutas por mudanças comportamentais e a adoção de novos hábitos na sociedade e, em todo Brasil e na Paraíba, convivia-se com lutas políticas e de mudanças de poder.O período da Revolução de 1930, como é conhecido, foi palco de manifestações de vários grupos urbanos que consolidaram de modo mais intenso as transformações comportamentais e a adoção de novos hábitos. A Revolução de 1930, no Brasil e especificamente na Paraíba, ocorreu, não apenas pelos problemas da governabilidade do Estado, ligados às questões políticas, mas também pela regulamentação da sociedade, impondo os dispositivos de controle moral que ameaçavam a instituição familiar e patriarcal. Portanto, a política das oligarquias fundamentava a estrutura social. Essa Revolução também ficou marcada como “o despontar de uma nova civilização”.

Nessa perspectiva, a professora, poeta e ensaísta Anayde da Costa Beiriz é considerada o ícone da mulher guerreira paraibana,símbolo do feminismo, ela se destacou como participante dos primeiros ensaios modernistas na cidade. O nome dela está envolvido na Revolução de 30, inclusive sendo apontada como o estopim dessa revolução, devido à tragédia do assassinato de João Pessoa, pelo advogado e jornalista João Duarte Dantas, com quem ela mantinha um relacionamento amoroso.

Nascida em 1905, na capital da Paraíba, foi uma mulher que deixou sua coparticipação na mudança de comportamento das mulheres paraibanas da década de 1920, com o seu estilo moderno. Anayde Beiriz horrorizou a elite retrógrada paraibana da época, com suas atitudes vanguardistas. Integrou os grupos de intelectuais masculinos e espalhou a ideia da liberdade e da independência feminina. Anayde Beiriz,viveu sua juventude em plena “belle-époque”, em meados dos anos de 1920. Arremessou-se na vida social e intelectual de forma bem expressiva.Numa época em que as mulheres de “decência” não podiam sair às ruas, Anayde foi uma mulher que não se sujeitava às regras sociais. Encarou os preconceitos na provinciana cidade paraibana e, para a sociedade, aos poucos, ela se tornou alvo de inquietação. Até mesmo por alguns colegas do meio literário, a escritora Anayde sofria preconceito, não só por ser uma mulher de ideias avançadas, como também por ser mestiça. Ela percebia a existência da discriminação dupla: pelo sexo e pela cor da pele.

Durante os estudos, na Escola Normal Oficial do Estado da Paraíba destacou-se, pois tinha clareza no falar e desenvoltura para proclamar os seus pensamentos. Terminou o curso de magistério aos dezessete anos de idade. Anayde como professora, foi conceituada como uma mulher avançada, com ideias de liberdade e de emancipação feminina. Por isto, ela foi convocada para lecionar longe da capital em uma escola na colônia de pescadores, em Cabedelo, a 16 km da capital João Pessoa, ondepassou a trabalhar em dois turnos. Durante o dia, educava as crianças e, à noite, alfabetizava os jovens e adultos da vila de pescadores. Sendo uma professora admirada pelos alunos, já revolucionava na didática de lecionar, com aulas dinâmicas e com a participação de todos.  Embora fosse uma época em que as mulheres não podiam sequer pensar em votar, ela já expressava que a mulher e o homem deveriam ter os mesmos direitos políticos. Com essas ideias ela passou a ser conceituada como uma ameaça à moral e aos bons costumes da sociedade da época, através dos textos de linguagem atrevida e livre, pelo seu comportamento, além de frequentar as festas à noite e sair sozinha, indo a certos locais, em horários em que a maior participação era masculina, ela deixava bem claro o que pensava sobre o sexo feminino.

Uma mulher que questionava a sujeição em que a mulher se encontrava e todas as formas de opressão e preconceitos. Anayde não se prendeu à convenção moralista, recebeu algumas influências dos modernistas do Sul e de outros países.Ela, que frequentava os ambientes literários e os saraus poéticos com opinião própria, afrontava a sociedade “medieval” paraibana com sua ousadia, sendo uma pessoa notável, forte e decidida para uma mulher do início do século XX.Anayde escrevia com uma reflexão real, expressando o desejo de um mundo melhor para todos. Nessa perspectiva, Anayde da Costa Beiriz é conceituada como a figura da mulher paraibana que se entregou de fato à questão feminina, sem nunca ter participado de movimento algum.A liberdade que a Anayde tanto lutou se encontra na alforria de ir além, ressaltar as condições de desigualdade nas afinidades de gênero, para que a mulher, enfim, possa ser vista como uma pessoa livre, capaz e independente.

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