1991 – O ano que a música no país engatou a ré




Em uma época pouco distante, uma bela fatia das emissoras de rádio, a televisão aberta e agenda de shows de centenas de cidades do país eram preenchidos por um estilo musical que hoje pena para encontrar espaço na cena musical independente e nas pequenas casas de shows.

Com o estouro da Blitz, com Você não soube me amar – de 1982 – o mercado musical brasileiro tinha ganhado espírito jovem, moderno e rebelde, já que o Rock Brasil (ou BRock para os íntimos) tomou conta da indústria fonográfica e revelou nomes como Paralamas, Kid Abelha, Titãs, Gang 90, Ultraje, Legião, Engenheiros, Ira!, Biquini Cavadão, Capital Inicial, Plebe Rube, Barão Vermelho, Camisa de Vênus e tantos outros. No restante daquela década, onde tivesse programação musical em qualquer mídia eles estariam presentes.

E o reinado do Rock Brasil durou exatamente 10 anos. Em 1991 tudo mudou. Duas frentes diferentes da Bahia e de Goiás mudariam radicalmente os rumos da música no país.

E fez o mercado de música pop dar uma reviravolta sem precedentes e que até hoje faz qualquer um pensar duas vezes na hora de escolher uma emissora no dial para ouvir boa música.

O axé e a música sertaneja conquistaram este espaço não foi por acaso. Este ano todas as grandes bandas do Rock brasileiro lançaram álbuns considerados difíceis, que não teve grandes repercussões e afastou de vez esse nicho musical de programas de auditório e das pedidas das rádios.

Os Titãs ainda desfrutava do sucesso do ‘Õ Blesq Blom’, mas apostou para o ‘Tudo ao mesmo tempo agora’ uma música mais crua, com guitarras distorcidas inspiradas no grunge e letras certeiras para a satisfação dos fãs, mas insuficiente para manter a banda nas “10 mais”. Os Paralamas em 1991 lançaria o disco Os grãos. A banda que foi alavancada com o disco ‘Selvagem?’, cinco anos antes, fez muito sucesso neste período na América do Sul, onde teve coletânea em espanhola lançada e turnê por diversos estádios nos países platinos.

Após o sucesso do ‘O papa é pop’, o Engenheiros do Hawaii lançaria o ‘Várias variáveis’, um dos discos mais aclamados pelos fãs da banda, mas com vendagem e repercussão muito aquém ao disco anterior que estourou em todo o país. O Legião Urbana foi outra banda que engrossou o caldo dessa safra de discos que jogou uma pá de cal no espaço que o Rock Brasileiro tinha na mídia. Após o sucesso do disco ‘As quatro estações’, a banda de Renato Russo lançou o álbum ‘V’, também aclamado pelos fãs, mas longe do sucesso de Pais e Filhos e Há tempos, do disco anterior.

Ao mesmo tempo em que o Rock brasileiro dava as cartas em respirar novos ares, beber do experimentalismo e de guitarras mais cruas, a indústria fonográfica soltava na praça nomes como Daniela Mercury, Leandro e Leonardo e Zezé de Camargo e Luciano. O sucesso desses dois estilos musicais no gosto popular traria cicatrizes duradouras e atuais em toda a indústria da música. Uma boa parcela da população do país que era acostumado a acompanhar o que era lançado a cada mês perdeu o interesse. A produção em série tomou conta dos estúdios. Os sucessos passaram a durar um mês e esquecidos em 15 dias. E sobrou pra gente, humildes mortais de ouvidos sedentos, admirar cada vez mais a música brasileira do final do século XX.

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Eliseu Lins é baiano radicado na Paraíba, jornalista formado pela UFPB, com especialização em Jornalismo Cultural e capacitação em Gestão de Projetos pela Fundação Getúlio Vargas (FGV).