Entre o muro e o abismo




Nesta sexta-feira, dia 10 de fevereiro o Museu de Arte Popular de Campina Grande esteve muito bem frequentado para assistir o segundo Seminário Temático da Revista Piriah, órgão editado pela Secretaria de Estado da Cultura da Paraíba. No centro do debate, Thayroni Arruda, Shiko (autor da arte que ilustra esse texto) e Alex Araújo. Três artistas da cena paraibana que transitam com inteligência pelos becos da urbe. Respectivamente, dois artistas oriundos do grafite que hoje invadem as galerias e as academias de musculação estética e um MC cuja inquietude, ideologia e inteligência  provocam polêmicas incendiárias na cena conservadora de Campina Grande. Pois bem. No momento em que painéis inteiros da arte de rua são “higienizados” em cidades como São Paulo e, dizem as más línguas, em universidades como a UFCG e UEPB, a guerrilha que responde é o debate público, aberto, cheio de vigor, mas também cheio de elegância. A elegância dos que não buscam salões e glamoures bolorentos para definir espaços na vida, para demarcar colheitas diante de cercanias e dos muros cada vez mais altos.

Tudo isso poucos dias após a presença do mito fascista da moda, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Jair Bolsonaro, ter arrancado suspiros de ódio insuspeito dos que arrancam a pele da igualdade em qualquer política pública. Contra a intolerância, não temos dúvida, a melhor resposta é o diálogo aberto. Esta é a porrada democrática que eles não suportam. A troca de farpas no âmbito dos argumentos não é o forte dos que temem até o silêncio. Como era de se esperar, nenhum higienista ou bolsômica criatura apareceu para o contraponto no debate dos “Três Pandeiros”. Seriam massacrados pela elegância dos debatedores e pelo respeito cheio de encantos do público presente. Aliás, sobrou periferia no centro do debate. Mas, não faltaram palavras exatas. Não faltaram ideias certeiras. Assim, o artista como “antena da raça” falou bonito pelos que há poucos metros dali estavam submersos no silêncio ruidoso dos bares. Nas esquinas, com água, espuma e rodo limpando para-brisas obscurecidos e suados pelo ar-condicionado. O silêncio permanente da tradição, família e propriedade, valores de um país que vive de abandonos e opulências.

Pois bem. As ideias não foram a nocaute. Criaram asas e molharam suas penas nas águas turvas do Açude Velho. A provocação valeu o debate e o debate valeu a esperança de que a inteligência, a criatividade e a sensibilidade possam enfim vencer o medo, o ódio e a ferida aberta de um mundo submerso na estupidez e no cansaço. Cada vez mais, desta forma, a revista Piriah vai cumprindo sua missão de tornar-se viva, na pele e no pensamento de quem acredita que o mundo pode ser melhor se nos percebermos mais densos e por isso mesmo, mais iguais.  O certo é que além dos muros pichados, grafitados ou tatuados pelo descaso, existe um abismo. Algo que nos afasta uns dos outros. Que pune os iguais com diferenças mínimas, enquanto os de sempre continuam fazendo as leis da conveniência e impondo comportamentos impossíveis para as tribos libertárias que respiram melhor nas noites das cidades. O centro do distúrbio que neste momento afeta o mundo, esteve a circular pelas curvas de Niemayer que vestem aquele equipamento de nudez transfigurada nas margens. Nas margens da cidade. Nas margens do Açude Velho. Lá estava a alma do Pedregal, das Malvinas, da Cachoeira, do Zepa. A transversalidade aboliu o centro e afetou a forma e o conteúdo do que pensamos enquanto pássaros de asas diversas.

Thayroni, Shiko e Alex, fustigados pela fina sensatez do mediador Milton Dornellas, fizeram da noite de 10 de fevereiro de 2017, um marco reflexivo do pensamento contemporâneo na Serra da Borborema. Presenças memoráveis, absorvidas pela sentença coletiva. Algo entre o espanto e o encantamento. Assim, vamos caminhando. Enfrentando os tiranossauros rex, mix de vampiro e gente. Capirotos e tucanos da mesma mata. Raça que saiu do armário nos últimos tempos berrando “minha bandeira jamais será vermelha” e “não tenho corrupto de estimação”.  No Brasil de hoje, nada mais simbólico que as massas vestidas com a camisa da corrupta CBF, seguindo um Pato de Tróia amarelo, mórbidos, cheios de ódio, proclamando sobretudo o ódio de classe a e rispidez diante de uma vida absolutamente frágil que cobre nossas diferenças e nos une apenas e finalmente, no sumidouro da morte. Me alegra saber que com qualquer frase posso concluir esse texto. Porque o inconcluso, o imperfeito, o ferino às vezes, o desconhecido, etc., são as forças que irão fortalecer o pensamento crítico de uma sociedade cheia de razões impunes e sangrias coroadas. Como o feminicídio, o aborto, o racismo, o machismo, o amor sem fronteiras e os demais temas fundamentais ao debate contemporâneo.  Para que nenhuma ameaça seja maior que a paz. Para que as mudanças ocorram sempre para tornar o mundo mais generoso e menos afeito às violências cotidianas.

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